quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Passagem para além de mim



Por Germano Xavier 

especialmente para Markoni Trigueiro,
companheiro de uma madrugada

Cheguei sozinho num táxi. Percorri ruas de uma cidade que ainda não conheço. João Pessoa, capital do estado da bandeira “Nego”. Passei por ruas e avenidas de uma luz ainda embaçada demais para meus olhos. A sensação era a de não-pertencimento. Não é uma coisa boa de sentir, mas o carro não parava. Casas antigas, casarões, casinhas. E as luzes amarelas. Desci. A rodoviária daquela cidade é um bloco de médio-porte com ares arquitetônicos obsoletos. Nada chama a atenção. Tudo muito simples, tudo muito usual. Olho para o relógio preso no teto e ainda não deu nem 10 horas da noite. O jogo vai começar. É uma quarta-feira. Preciso me prevenir, penso. Vou à lanchonete, a única que ainda se mantém aberta a essa hora da noite. Peço um suco de laranja e um sanduíche só de queijo, a mulher por trás do balcão me avisa que os serviços da lanchonete já terminaram. Vejo que ela tira o seu gorro, parte de seu fardamento de trabalho. Ela não está mentindo. Eu penso na minha salvação. Estou sem víveres em minha mochila e posso morrer ou sofrer de fome até o amanhã acontecer. De repente, ouço um grito entrar por um dos saguões do estabelecimento, onde alguns potenciais passageiros, malemolentes e já com o sono tombando aos olhos, cultivam a lentidão do tempo. Pareceu-me o dono da lanchonete, um baixinho de óculos, parcamente gordo, avisando: “Vou fechar, quem quiser alguma coisa, que venha agora! Depois, só amanhã de manhã! Estou fechando!” Eu olhei para as prateleiras. Pense rápido, garoto – disse a mim mesmo. Vejamos... suco artificial de laranja, dois biscoitos recheados sabor chocolate. Pronto. Paguei. Ouço o barulho das grandes portas roliças sendo abaixadas, um ranger metálico e estridente. Eu ando no vazio, na direção da outra extremidade. Paro no meio do caminho. Penso na pedra do poeta, tiro a blusa de frio. Não está frio, não está calor. Precisaria de um banho, mas... impossível agora. Uma leve agonia corporal me invade. Odeio me sentir sujo. Mas dava para continuar. Eu segui. Algumas pessoas vêem TV, fim da novela. Eis o jogo. Futebol é sempre a mesma coisa, pensei. Olhei para o rosto de cada um e imaginei suas vidas. A vida, sim, nunca é a mesma coisa. A mulher com seu filhote no colo, o velho barbudo ao lado de sua caixa de papelão, o jovem de boina vermelha, meio brega, meio marginal, o outro com a esposa, os namoradinhos, o que está de pé acende um cigarro com classe, o outro tenta encontrar um jeito de dormir. No meio do primeiro tempo, decido andar por aí. O telefone toca. Ouço uma voz bonita, pensei logo nela. Não, não é. Mas é uma voz bonita. Digo que está tudo bem. Tentei. Estou sem crédito e o telefone ficou mudo de vez. O que fazer. Não quero que se preocupem. Olá, você pode passar uma mensagem para mim de seu celular? O moço diz que sim. O celular é lindo, escreve-se com uma canetinha. Pedi a ele que digitasse. Obrigado, companheiro. Boa noite. Eu estou bem, apesar de não estar tão bem assim. Mas quero passar essa impressão a mim mesmo, pelo menos isso. Eu consigo. É ela agora, o telefone treme. “Amor, meu grande amor...” Comprar um cartão telefônico. Nunca pensei que fosse tão complicado. Fui para fora do lugar, perguntando. O guardinha disse que só entrava pagando. Poxa, que desgraça é essa! Ninguém aí nessa espelunca pode me fazer o favor de ir ali naquela barraca e me trazer um cartão?! Paguei. 1 real e 80 centavos. Vai ficar caro, mas tudo bem. Pessoas sentadas esperam seus destinos. A noite é quase negra. Até um cego sentiria aquela lua linda. Consegui. Volto e ligo. Agradeço por tudo e aviso que vou voltar. E que vim para buscar ela de vez. Agora vai ser assim. Ou morremos ou não vivemos nada. Quase uma hora e as muriçocas me estragando a pele dos braços. Suportei. Um homem quase dando uma cambalhota, de tão envergado sobre o pescoço, dorme na cadeira verde. Eu vou ver a lua. Na entrada há uma fila enorme de táxis. Vou passando e olhando para o interior de cada automóvel. Os donos, deitados sobre o volante ou no banco traseiro, cochilam suas angústias. Sento no meio-fio, por detrás de um carro branco. Tiro de dentro da mochila uma blusa e estendo-a no chão. Deitei e agora estou olhando a lua linda no céu. Penso sobre o dia e me passa um filme bonito. É a memória funcionando. Estou mais vivo do que pensei. Há cigarros. Tiro os sapatos e percebo o sangue correr mais livre na ponta dos dedos. Alívio imediato. Cada vez mais vivo. Olho novamente para o relógio, quase 12. Ouço gritos de gol. Depois olhos tristes de derrota. O time brasileiro fora derrotado. Vivas aos argentinos! Há de se convir que raça e mandinga também ganham jogo. O corredor vai se esvaziando aos poucos. O lugar é quase um deserto e eu continuo deitado olhando a lua. Daqui a pouco me aparece um senhor franzino de corpo, aparentando dois tragos de cachaça no fígado, mas ainda sóbrio, com cabelos brancos, esbanjando sinceridade nos olhos. “Tudo pai de família”, ele me diz, fazendo referência ao bando de cinco ou seis taxistas que conversam e fumam bem próximo da gente. Sinto um teor crítico bastante sarcástico na fala do bebum. “Vai pra onde, doutor?” Bahia, respondo. Juazeiro da Bahia. E não me chame de doutor, sou como você. “É mesmo, doutor. Todo mundo vai pro mesmo lugar depois daqui, confere?” E me estende a mão, me olha nos olhos e tira do bolso esquerdo da camisa a sua carteira de identidade. “Meu nome é Markoni Trigueiro, confere?” Confere, me chamo Germano. De onde és? “Sou daqui mesmo”. Vocês não sabem o real tamanho de Markoni, homem que passou toda a madrugada comigo, me falando o nome das capitais do mundo todo, fazendo contas mirabolantes de matemática, respondendo as perguntas que eu fazia sobre geografia e história, me falando do seu livro favorito de Jorge Amado, “Tereza Batista cansada de guerra”. Estamos cansados, meu bom amigo? Talvez não. Markoni me contou toda a sua história, disse que estava fora de casa já há dois dias, que tinha vergonha dele mesmo, que se sentia incapaz, que tinha uma filha formada em pedagogia e que ensinava numa “escolinha”, que amava sua mulher e que foi vendedor de livros por muito tempo, mas que agora estava desempregado. Entre uma brincadeira e uma confissão, entre uma pergunta e uma sábia resposta, entre um ensinamento em francês e uma lembrança, Markoni, camisa azul de botões aberta na altura do peito, bermuda branca e chinelos simples, olhou para mim quando o relógio marcava cinco e cinqüenta do outro dia, e disse: “Preciso ir.” Falei, de chofre, que era cedo ainda, que ia viajar só quando desse dez da manhã, que ele podia ficar, caso quisesse. Ele repetiu que precisava ir. Agradeci pela companhia, com um sentimento bonito escorrendo nas veias. Percebi os seus olhos verterem lágrimas e ficarem vermelhos. Que é isso, Markoni? – interroguei. Ele me deu um abraço verdadeiro e quis saber se eu iria esquecê-lo. “Promete que vai se lembrar de mim, doutor?” Falei que jamais o esqueceria, e que quando chegasse em casa escreveria um texto para ele, para servir de memória. Ele me olhou uma última vez, apertou forte a minha mão, ainda chorando, e partiu. Nesse instante, falei comigo mesmo: “Um dia a gente se encontra novamente, Markoni. O mundo é pequeno demais diante de nossas vontades...”

5 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Passagem
by ~CaetanoBorges"
Deviantart

Letícia Palmeira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Zélia disse...

Não vou falar da rodoviária. Vim dizer que voltei não porque eu soube que vc falou de mim. Voltei porque já ia voltar. Barcos voltam. E, vou dizer que, embora vc cale, eu tenho um tanto para te dizer. Vou encontrar uma brecha na janela do teu coração...

(Ainda) Um carinho! :D

Marisete Zanon disse...

Em pequenos encontros cabem vidas inteiras.

Marisete Zanon disse...

Linkei seu blog, não resisti...!
um abraçolophatc 15