sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Partes e partículas


Por Germano Xavier

“Uma parte da minha vida eu vivo, outra parte me contam.”
(Ferreira Gullar)


Para amanhã, guardo expectativas. Porque o hoje já se foi e o que tenho de certeza são meus dois dias a mais que meus vinte e quatro anos de idade. Não sou novo, não nasci ontem. Tenho vinte e quatro anos de idade e mais dois dias. Se eu quiser, posso já me considerar um velho. Ter vinte e quatro anos de idade e mais dois dias é já ser velho, pelo menos para mim, é já ter uma longa vida vivida. Mas isso só se eu quiser. Por enquanto, não quero. Melhor deixar como está. Não vai mudar muita coisa se eu já me der o título de idoso. Não conseguirei nem uma cadeira prioritária num destes ônibus da coletividade. Se para idosos-idosos a coisa já está feia, imagine para mim, um pseudo-decrépito-autointitulado-sem-cabeça-alva. Sigo, dessa forma, minha odisséia. Não existe vida mais bonita que a minha. Leia-se “bonita” como “propícia às histórias livrescas e fenomenais, baseadas em eventos catastróficos-ínfimos de natureza casual-ou-não”. E se você disser que não existe vida mais “bonita” que a sua, eu vou acreditar e aceitar, porque a vida de cada um é a vida mais “bonita” que existe. E a minha é a vida mais “bonita” que existe, e você deve aceitar sem titubeações. E um dia eu ainda descubro o porquê dos escritores quase sempre estarem certos... pela manhã, agi como um ser deletério. Fui nocivo ao meu passado. Destruí coisas que achei banais e preservei outras. Eu concordo quando dizem que “a memória é o esquecimento”. Concordo e não concordo, convenhamos. Mas até o concordar é passageiro no bonde que passa. E para que se preocupar, não é mesmo? Temos tanta coisa e coisa pouca para selecionar. O bom sempre anda mais escondido. Hoje, aniversário da cidade baiana onde estudo, feriado, aproveitei para manter a leitura em dia. Pensei estar doente de verdade, acreditando que eu vivia. Li jornais e revistas. Tudo sem ordem. Quase sempre leio assim. Estou lendo uma coletânea de crônicas do Ferreira Gullar. Mas fui à biblioteca do centro pregar um cartaz do Cineencontro e aproveitei para pegar dois livros: “Lavoura Arcaica”, do Raduan Nassar, para reler, e “Os dragões não conhecem o paraíso”, do Caio Fernando Abreu, para terminar a leitura que tinha iniciado antes do início do recesso. São dois autores que me inspiram bons momentos. Mas eu me sentia doente, pensando que eu estava vivo e que a vida valia a pena. Foi quando deparei com a palavra do Antônio Abujamra, no caderno Illustrada do jornal Folha de São Paulo, dando o seu choque de realidade para um grupo de atores comandado por ele numa recente apresentação teatral: “Tem uma loucura muito grande na cabeça deles de achar que a vida não é mesmo uma causa perdida. Tiveram de aprender que é, sim. Felicidade é uma idéia velha. Ser feliz, só no palco; na vida, não dá. A vida é uma causa trágica”. Aí eu parei, olhei as horas no relógio e disse “meu dia termina aqui”. São vinte e uma horas mais cinquenta e quatro minutos. Preciso de minha sanidade novamente. E vou buscar. Amanhã é um dia com mais de vinte e seis horas para viver a minha vida “bonita”. Todavia, por ora, fecho a conta do meu dia de número oito mil e setecentos e sessenta e oito, já contando com os anos bissextos e tudo...

2008

2 comentários:

Dani Gama disse...

Bravissimo!
Concordo com você. A vida da gente é sempre a melhor, a mais bonita, a melhor. Mas, veja bem, isso é para quem não se lamenta dela. O pessimista sempre acha que a vida dele é a pior. Achar sua própria vida a mais bonita é algo dos que tem coração nobre, alma nobre. Nobreza no sentido rico da coisa. Não o rico material, mas rico de coisa rara, especial.

Beijo grande.

Controvento-desinventora disse...

Que delícia de texto! Um mergulho sincrônico,promovendo uma epifania aguda...Adorei!