quinta-feira, 31 de maio de 2012

Quando morre um poeta


Seu Ângelo autografando o seu livro "Realidades Telúricas", em 20/01/2012.


Por Germano Xavier

Para o poeta iraquarense Ângelo de Mattos Pereira, 
in memoriam, 
a minha sincera homenagem. 


quando morre um poeta
inaugura-se um novo castelo
no céu (ou no inferno)
para que o poeta morto nunca o habite
nem o meio-austral do mundo
no mundo dos homens comuns

poetas não habitam purgatórios
poetas habitam os caminhos
de se ir sempre (nus)
pelas estradas ferozes que precisam ser caminhadas

poetas são bestas endiabradas
que domam palavras iradas
na silenciosa existência do tempo

quando morre um poeta
(espécie de deidade gauche feita de impropérios)
morre também um vergel de brasas
(mas com sementes nos sulcos telúricos
deixadas para o Belo insistir)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Um estudo sobre quedas e apogeus



Por Germano Xavier

A produção da ciência histórica baseada em linguagens e comunicação 

A construção conceitual do termo "História", assim como de tudo aquilo que por ela é envolvido, fundamenta-se na ideia de que esta expressão participa muito naturalmente da organização instrumental-metodológicaque legitima esta “Ciência do Tempo” e que sobremaneira é usada pelos indivíduos no objetivo de criar um "ambiente" propício ao desempenhar de tarefas-ações as quais os procedimentos do historiador se destinam, sempre em busca de cumprimentos e realizações plausíveis para a ordem de seus estudos e pesquisas. 

Deste modo, o conhecimento histórico, para se fazer vivo em todos os seus meandros de atuação, utiliza e, mais do que somente isso, necessita estruturar uma dada realidade relacionando-se com o outro, com o que é apenas objeto ou com o que não é concreto, partindo sempre do pressuposto de que para isso é preciso dialogar com todas as formas possíveis de linguagem para se gerar uma comunicação de boa credibilidade. 

Estudar a mecânica física e simbólica da dinâmica linguístico-comunicacional utilizada pelo estudioso Gilvan Ventura em seu artigo intitulado “O fim do mundo antigo: uma discussão historiográfica” é se tornar sabedor de que há sempre um viés diferente que permeia a elaboração de situações reais/históricas, assim como cognitivas e operacionais a partir da interferência do olhar do historiador, que é afetado por vários aspectos, nunca sendo algo estático ou jamais passível de sofrer variações. 

O indivíduo, ou seja, neste caso a figura do historiador, estrutura uma respectiva realidade no intuito de "desproblematizar" algo, de ir adiante numa percepção, de alcançar objetivos com interesses diversos e, assim, poder superar os obstáculos aos quais se encontra imiscuído. Portanto, História e Linguagem se misturam principalmente quando na esfera de fabricação dos significados, pois, como sabemos, os indivíduos-historiadores dialogam com forças e necessidades quase sempre adversas, ora simples ora complexas, para depois agir sobre o meio e produzir a ordem histórica desejada, sempre levando em conta a atualidade de seu tempo histórico. 

Para isso acontecer sem maiores dificuldades e empecilhos, a linguagem acaba atuando no desbloqueio de tensões com fronteiras espaço-temporais. Em outras palavras, toda comunicação e toda linguagem produzida pela ciência histórica é o conjunto sistemático e estrutural de manifestações coletivo-individuais que, motivadasou não, prepara o indivíduo para que ele entre em contato com inúmeras interações e jogos relacionais, gerando ferramentas de apreciação e efetivando ações sobre determinados meios com fins justificados pelo passado, pelo presente e também pelo futuro da condição humana. 

Para entendermos melhor tal fato, é preciso perceber a linguagem como sendo um instrumento de base comunicativa, ou seja, que produz comunicação. Sendo assim, é preciso muito cuidado com o trato que damos em nossas pesquisas, a ponto de não sermos prejudicados ou mal-entendidos por uma ou outra expressão mal colocada. É preciso controlar o uso de pensamentos e ideias nascidas em ambientes pouco confiáveis, como os meios televisivos e, em maior grau, a internet. 

Um bom historiador é aquele que investiga a fundo tudo que almeja dizer, ou melhor, tudo aquilo que pretende transformar em comunicação por meio da utilização da linguagem, seja ela verbal ou não verbal. Até porque, aquele que estuda a História é ou será fundamentalmente um informador/formador de opiniões, e que deve ter em mente que a linguagem expressa também nossos pensamentos (e sentimentos), o que poder ser muito perigoso. Resumindo, ser o mais imparcial possível e atender as reais expectativas científicas ainda é, talvez, o segredo de um bom trabalho nesse âmbito. 

Todo “Tempo Histórico” possui sua forma peculiar de ser analisado, discutido, criticado e divulgado. O mito foi uma das primeiras formas encontradas para se tentar explicar os fatos referentes ao homem e a sociedade da referida época. Após o uso extensivo da mitologia, logo a Filosofia surgiu como um contraponto nesse cenário. 

O pensamento filosófico ajudou o ser humano a duvidar e a conhecer as grandes implicações das sucessividades que envolvem a narrativa pertencente ao homem, bem como auxiliou no aprofundamentoreferente aos conhecimentos dos grandes textos e das estruturas linguísticas que traduzem as mais diversas narrativas de ordem moral, social e ética que objetam garantir a nossa formação enquanto atores sociais e sujeitos históricos capazes de agir com adequação no intuito de formular uma sociedade melhor e mais justa. A filosofia fez com que a linguagem tomasse outros ares e o processo de significação das coisas fosse totalmente ressignificado. 

Foi justamente após a implantação do pensamento filosófico que o homem começou a sentir uma urgência em discorrer sobre quaisquer processos históricos cuja base fossea doconhecimento/consciência, e é essa a maior contribuição da Filosofia para com a pesquisa historiográfica. Exemplos não faltam para elucidar isso. Santo Agostinho, por exemplo, confiava na força da memória a ponto de relatar que a memória era o elo entre o passado e o presente, já iniciando alguns dos preceitos mais importantes do conhecimento histórico. Ao dizer que não existia passado nem futuro, e que o presente era apenas uma cadeia de instantes que vão se desgastando numa velocidade muito alta, Agostinho preconizava um dos itens mais vivos da historicidade, que é justamente esta ligação com os três tempos: passado, presente e futuro. 

A filosofia crítica, por sua vez, costumeiramente enveredou-se também no que se refere à autenticidade da “História”, já que para essa linha de pensamento a nossa história está permeada e naturalmente misturada às lutas de poder –fato que faz com que haja uma espécie de separação entre aquilo que é teoria e aquilo que porventura esteja no campo da prática- isso por causa dos interesses particulares de uma determinada elite ou classe social, o que não raro acontece neste processo todo. 

Então, partindo desse ponto de vista, a "História" nunca é contada avaliando-se o todo, mas apenas uma parte desenvolvendo uma teoria onde não foi pensada a prática dessa teoria. Marx Horkheimer e Teodor Adorno - só para citar dois exemplos -, estudiosos da Escola de Frankfurt, tecem muitas ideias com relação a isto. A filosofia busca generalizações de caráter universal, que seriam verdadeiras em todas as épocas e lugares, eis o mistério de toda a sua grandiosidade e fator maior de sua relevância para todos os campos de produção de conhecimento, incluindo o histórico. 

O filósofo, assim como o historiador, tem mais abertura para trabalhar com distinções analíticas, o que acaba favorecendo a construção de argumentos para depois efetuar críticas. Destarte, o historiador sempre almeja produzir uma investigação anteriorà composição das narrativas históricas, na qual investiga as fontes e recolhe dados, preocupando-se em fazer com que sua produção criativa não seja prejudicada durante alguma etapa do processo de fabrico do texto. 

Por sua vez, o filosofante deixa de lado toda espécie de estudo de caráter premonitório ou anterior, interagindo mais com aquilo que podemos chamar de problemas e, por conseguinte, de soluções. Diante disso, percebe-se através de inúmeras fontes de pesquisa que a atividade crítica é uma atividade mais ligada ao filósofo, porém o historiador não está impedido de tecer considerações nesta linhagem. Fica evidente que a interação entre estas duas disciplinas (ciências), a história e filosofia, tem raiz profundamente interdisciplinar e que o estudioso que desenvolve qualquer um desses caminhos está condicionado a utilizar ora o método histórico, ora o método filosófico, já que somente assim faz-se possível adentrar numa análise mais perto da perfeição acerca do fenômeno científico que porventura esteja sendo estudado. 

Com relação ao terceiro questionamento objetivado pela orientação a que nos foi dada, é possível perceber que o historiador Gilvan Ventura, ao criticar a colocação e uso de expressões como “queda” e “declínio” para elucidar o processo de “derrocada” que se abateu sobre o Império Romano tem uma razão de ser muito factível. Falar em “declínio” e/ou“queda” pressupõe ter havido um auge e/ou uma ascensão, ou para completar o pensamento, pressupõe ter havido um momento mais ou menos fértil-produtivo. Ou seja, o uso de tais termos serve para contrapor a ideia de auge e ascensão. 

Trata-se de uma ideia de valoração do estado anterior. É razoavelmente compreensível a facilidade para que se questione essa valoração, uma vez que “queda” e “declínio” levaram a transformações da organização social, política, geográfica da sociedade - e do mundo até - ocidental. Para valorar é preciso julgar algo em relação a alguma outra coisa – a bem da verdade é que o que se questiona é a legitimidade desse julgamento e quem pode fazê-lo e alegando o quê, a partir de quais elementos. Para isso, cabe perguntar também: Que paradigmas foram banidos nesta avaliação? E qual a causa? 

Talvez, como preconiza Gilvan Ventura em seu artigo “O fim do mundo antigo: uma discussão historiográfica”, a escolha pela utilização de tais termos sirva apenas para designar uma fragilidade apresentada em relação à segurança, economia, política e/ou capacidade de se manter no mesmo ritmo de crescimento - o que podemos classificar como sendo o apogeu. Por mais que pareça exagerado, rigoroso e fatalista demais, os termo “queda” e “declínio” remetem a um fato, pois há essa relação. As fragilidades a que os termos se referem levaram realmente o Império ao fim - ao menos ao fim de como tudo era antes configurado.

terça-feira, 29 de maio de 2012

O poema das pedras com pétalas


Por Germano Xavier 

Para o amigo poeta José Inácio Vieira de Melo 

a pedra é uma rosa
flor que compõe um chão
bruto broto que ameniza (es)feras
no vago-nada-vago do sertão

a pedra é uma arma-lança
para abrir cabeças-caminho
para produzir rebelião
para assim a pedra serve então

o poeta que apedreja
arquiteto matuto sem fiança
atira o seixo e a única herança
é mais dureza
é mais aurora

a pedra é uma pétala
instalada nos corações roceiros
parte-se na aligeirada partida
ao sol de antes das seis

a pedra abrange um sangue novo
magma austero dos mandacarus
leite equatorial do gado com fome
recurso de se humanizar animal

a pedra rolada e inerte
da ribanceira desce feito mocó
namora o monte e a serra
arrasa tardes
deita estradas

a pedra
a pedra é uma rosa
flor que enobrece um não
semente que alumia
o vago-nada-vago
este esporão

sábado, 26 de maio de 2012

O carteiro e o poeta



Por Germano Xavier

Após a 2ª Grande Guerra, o poeta chileno Pablo Neruda ( Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Basoalto) é exilado por causa de sua militância comunista. Ao lado de sua companheira, é recebido festivamente na Itália e passa a residir numa casa modesta na zona rural de um povoado da pequena ilha de Cotto. Ali, a atividade econômica básica dos ilhéus é a pesca. Um destes ilhéus, Mario Ruoppolo, se emprega nos Correios, como carteiro, e tem como único destinatário justamente Pablo Neruda, de quem se aproxima e trava relações de amizade. Mario lê os livros de Neruda, conhece suas ideias e se deixa fascinar pela personalidade carismática do seu amigo poeta. Nesse ínterim, Mario se apaixona por Beatrice Russo, sobrinha da dona da taverna, com quem se casa tendo Neruda por padrinho. Neruda é anistiado pelo governo chileno e resolve regressar à sua pátria. Mario adere à doutrina comunista e se torna ativista da causa; numa manifestação pública, na qual é solicitado a subir ao palanque, para declamar um poema, tem início um tumulto provocado pela repressão policial e Mario vem a falecer em virtude de agressões dos policiais, deixando a esposa viúva e um filho, Pablito, a quem não chegou a conhecer. Neruda, de passagem pela Europa, resolve rever o local do seu exílio e fica sabendo por Beatrice do passamento de Mario. Neruda vai à casa onde morou, ouve a fita gravada por Mario enquanto olha a paisagem, anda pela praia...

*
O filme mostra como a beleza, em forma poética, pode recobrir os fatos mais simples do cotidiano, a amizade, o trabalho, a bandeira dos ideais libertários, a paisagem prosaica de igualdade e justiça social. Os diálogos, entremeados com as imagens e a música sugerem sentimentos íntimos de solidariedade humana. Os homens de culturas diferentes, com históricos de vida diversos, estabelecem um diálogo amistoso numa cosmovisão fraterna possibilitada pela sensibilidade à beleza das coisas simples, à emoção das coisas mais elementares. A beleza não é exatamente um componente externo ao homem, mas uma faculdade íntima com que o homem envolve tudo que ama e reputa justo. Os dois personagens centrais interagem com um diálogo franco no qual as aflições humanas, como o sentimento de justiça, afloram espontâneos em palavras e gestos tácitos, inarticulados, mas propriamente sentidos. O filme exprime percepções universais que promove uma empatia, certo sentimento de solidariedade, que aproxima aqueles dois homens e atrai a simpatia dos observadores mais isentos. Os elementos que o filme reúne, o enredo, as imagens, a música distendem uma emanação que se expande e nos envolve num amplexo amoroso. O veículo do poeta, a poesia, nos desperta o condão adormecido de perceber a beleza da natureza, a música da vida que corre silente no rio subterrâneo de nossos seres; acorda em nós os elementos divinos inauditos - intuídos porém - da humana capacidade de - aglutinados os caracteres semelhantes - promover a emersão num mundo fraterno onde todos viviam em harmonia com tudo e com todos. O filme não é uma obra, diríamos, de consumo - para desafogar-se do tédio nas horas de ócio; é uma iguaria fina para degustar no silêncio das nossas reflexões. É um filme que propõe mais do que entretenimento; nos provoca a reflexão.

*
Na insula de Cotto, como de resto nos lugarejos e povoados mais afastados dos grandes centros urbanos, as pessoas se movem na apatia do tempo que se alonga, naquela percepção, infindo; onde os gestos e as atividades do cotidiano geram uma vibração de prazer, bem-estar que se dilata do indivíduo até às bordas do infinito; emoção envolvente que não descarta nenhum dos elementos circundantes, os vizinhos, a solidariedade dos mutirões, o ritmo pachorrento das estações que se desdobra em lances conhecidos, sem surpresas, como que adormentando os caracteres humanos e os reduzindo à satisfação mínima das demandas básicas. Daí, a disposição para a comunhão dos eventos prosaicos e a proximidade compassiva das aspirações que faz os espíritos moverem-se quase como um só corpo. O universo delimitado pelos horizontes perceptuais torna aqueles homens partícipes dos mesmos anelos e como que sujeitos aos mesmos destinos. Nos grandes centros urbanos, na nossa sociedade de consumo, mormente, os valores estabelecidos pelos grupos dominantes, propagados pelo marketing dos meios de comunicação, incitam os atores sociais dispostos no mercado de trabalho a uma disputa encarniçada para afirmar-se, cada qual, como o portador sobremodo excelente das virtudes requeridas pelos segmentos específicos do mercado, essa hidra faminta que consome nos refolhos do seu ventre todo tempo, todo esforço e todo caráter mais propriamente humano de que o homem possa ser possuidor. As relações humanas são fragmentadas pelas posições, postos no mercado - consignados por relações de subalternidade mensuradas pelo nível ou capacidade de consumo. A mentalidade média segue o discurso do individualismo excludente. Nesta guerra não declarada já não basta ganhar a vida, persegue-se o status em detrimento dos sentimentos motivadores de conduta e das ações compassivas, solidárias. Num ambiente que sobreleva a importância de ter e usufruir, os impulsos mais nobres do coração é sacrificado, imolado na fogueira do consumismo ególatra.

*
O filme é dirigido por Michael Radford e conta com as atuações de Massimo Troisi (Mario Ruoppolo) e Philippe Noiret (Pablo Neruda).

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Deimos e Fobos


Por Germano Xavier 

(medo e terror) 

as duas luas de Marte
acenderão a penumbra
a luz morta
no vestíbulo de andar

(meu colega de profecias
me disse que o trem
já não passa mais sobre a grama verde da Fantasia)

não vai o homem
ser o que poderia ter sido? -
a árvore do sertão,
a última flor celestial

trombetas, Deus, amor, torres
- para onde tudo, para quando nada?
você tem mesmo certeza de que esta paz
não abre ferida de vida?

as duas luas de Marte
descerão sobre a Terra e cegarão os homens
já cegos e dar-lhes-ão outros olhos:
olhos de não ver ninguém

Chi dorme non piglia pesci

Ilustração de Cida Mello

Por Germano Xavier 

(quem dorme não pega peixe) 


panóptico
anzol
olho de sol
e de brisa
olho de marsol
olho de passarinho
olho que tudo vê

voo
o senhor dos sentidos
portal
a vela
faculdade for export

de cima para baixo
de baixo para cima
ver, enxergar, perscrutar
árvore de espiar
a floresta humana
(também sem humanidades)

utilidade pública
para ser, fazer, saber e sempre
imigrar

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Escritores iraquarenses são homenageados em projeto escolar


 Por Germano Xavier

A cidade de Iraquara-BA, Chapada Diamantina, completará 50 anos de emancipação política no dia 5 de julho de 2012 e, como não poderia deixar de ser, algumas homenagens serão prestadas à sua história ao longo do referido ano. Uma delas é o Projeto "Iraquara Mostra Sua Cara", realizado por educadores e alunos do Colégio Francisco de Assis (CFA). A ideia inclui o desenvolvimento de variadas sequências de trabalho, onde cada turma ficará responsável por uma temática específica. O 4º Ano do Ensino Fundamental I, por exemplo, fará um estudo envolvendo alguns escritores da terra, que desembocará na produção de álbuns biográficos e, consequentemente, na exposição do material nos dias de culminância dos festejos citadinos. "Pensamos em fazer algo que realmente mobilizasse toda a escola, tanto que é ele (o "Iraquara Mostra Sua Cara") é agora um projeto institucional. Daqui por diante não vamos deixar a história local de fora do âmbito de nossa escola, pois é importante agregar conhecimentos de nossas localidades ao currículo tradicional", relatou Ângela Pereira Oliveira, coordenadora do colégio. No tocante a tais acontecimentos, foi realizado no dia 21 de maio de 2012 um encontro regado a chás, chocolate quente e muita conversa com os escritores locais Nélson Neves, Zélia Ribeiro Coutinho e Germano Xavier, que foram entrevistados pelos estudantes em três rodas de debate. Dos escritores, foram colhidos dados como a data de nascimento, fatos relevantes da infância e adolescência, escolaridade, profissão, dados marcantes de suas vidas, entre outras informações que servirão de base para a construção dos respectivos álbuns. "Estamos pensando também em realizar um jogral, conseguimos através do apoio da Banda Filarmônica de Iraquara fazer a melodia do hino da cidade, que contará também com um coral para a sua apresentação. O projeto "Iraquara Mostra Sua Cara" também irá versar sobre culinária, ervas medicinais, saberes populares, paródias e será apresentado integralmente através de um desfiles pelas ruas da cidade", reforça Ângela. "Infelizmente, por falta de tempo, fizemos apenas o mapeamento de escritores da sede, mas sabemos que há muitos escritores também na zona rural. Convidamos Maria Neta, Ângelo Mattos e outros, mas estes não puderam comparecer por motivos de saúde. Este ano estamos enfatizando mais o universo da leitura através de projetos institucionais, gincanas, feira de livros usados... e a nossa intenção ao trazer escritores para a escola é justamente a de incentivar ainda mais a prática da leitura em nossos alunos", acrescentou Ana Elza Medeiros, gestora do CFA. A professora do 4º Ano, Luana de Souza Rocha, disse ainda que "além de todos estes encaminhamentos, houve a preocupação de se trabalhar em sala de aula os gêneros, tais como o da entrevista, que serão utilizados pelos alunos durante todo o processo e que servirão de veículo para acessar um maior números de fontes de informação".

Hai-cai de estrelas


Por Germano Xavier

A luz grita,
tão alto,
quando é noite senhestrelas...

APLB em Souto Soares trabalha em prol de mais cidadania


Por Germano Xavier


Basta o mínimo rumor acerca de alguma movimentação grevista na educação da Bahia e lá está ela junto aos holofotes, estendendo bandeiras, cartazes, levando milhares de pessoas às ruas e reivindicando melhorias frente aos governos vigentes. A APLB (Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado da Bahia) nasceu oficialmente em 24 de abril de 1952 e desde os mais remotos anos de sua existência vem servindo de periscópio vigilante para esta categoria profissional - a de professor - que vem perdendo o prestígio com o passar das gerações, devido a diversos fatores, muitos deles de ordem - ou desordem - governamental. Na pacata cidade de Souto Soares, na Chapada Diamantina-BA, a sucursal da APLB existe desde meados de 2002. Vilma Pires, secretária do núcleo APLB na respectiva urbe, revela que nem só de greve vive o sindicato. "No começo, não havia um local apropriado, ficava todo mundo em sala de aula e a gente se desdobrava para atender essa parte sindicalista. Muita coisa aconteceu de lá para cá. Em 2011 nós criamos um plano de trabalho onde um dos objetivos era o de fazer vários tipos de pesquisa, para ver como está o andamento de vários aspectos dentro das escolas, como a merenda, transporte, etc. Num primeiro momento, fizemos este trabalho de averiguação da satisfação dos serviços escolares no âmbito das escolas municipais, com alunos do Ensino Fundamental II, mas para 2012 a ideia é atingir as séries do Ensino Fundamental I. Vilma conta que depois que é realizada a pesquisa de campo, todos os resultados são apresentados em assembleia, e é feito o balanço que irá servir para auxiliar no direcionamento de futuras ações. "Depois do primeiro semestre, a nossa vontade é de aplicar estes questionamentos novamente para fins de comparação, como se fosse uma segunda bateria. Sobre as assembleias promovidas por este núcleo APLB, por exemplo, quando a comunidade fica distante daqui da sede a gente marca com os professores e a APLB vai até lá para facilitar todo o processo de diálogo. Na verdade, o nosso trabalho é de olhar, cobrar, averiguar e conferir como tudo está acontecendo na esfera educativa, como também de protestar quando preciso. Quando olhamos para o passado, é fácil perceber que já conquistamos muita coisa com o apoio de todos, mas ainda tem muita coisa para ser conquistada", reforça Vilma. A coordenadora geral da APLB-Souto Soares é feita por Lélia Lúcia Batista. Sobre a greve atual dos professores da Bahia, Vilma diz que "a APLB apoia os professores pois acredita que tudo precisa melhorar. Na paralisação que aconteceu em março, nos dias 14, 15 e 16, que reivindicava principalmente o piso salarial, nós aderimos somente dia 16 por acreditar que iríamos prejudicar muito os alunos se paralisássemos por 3 dias. Nessa paralisação houve a participação dos professores do município e do Estado. Antes de irmos para as ruas nos reunimos e confeccionamos os cartazes. Antes disso, durante a semana contratamos carro de som e colocamos anúncio na rádio no sentido de mobilizar a categoria. Recentemente, também participamos de encontros em Seabra-BA. Enfim, estamos em prol da melhoria, sempre."

Uma imagem do homem


 Por Germano Xavier

Imagem do Coronel Horácio de Mattos, um dos mais importantes personagens da história da Chapada Diamantina, Bahia. A fotografia foi retirada durante uma entrevista com o escritor iraquarense Ângelo de Mattos Pereira. A imagem encontra-se em sua posse, numa das paredes da "Toca do Poeta".

domingo, 20 de maio de 2012

Antes de toda certeza


Ilustração de Cida Mello

 Por Germano Xavier

parir uma vida
antes de toda morte
parir um deus
antes da vaga prece
parir um sol
antes da dor poente
parir um olho
antes do rebento
parir um caminho
antes do tapete mágico
parir uma floresta
antes da única folha
parir a sorte
antes do trevo
parir o leite
antes da sucção
parir a cor
antes do breu
parir a dúvida
(principalmente)
antes de toda certeza

sábado, 19 de maio de 2012

O Silêncio das Agulhas


 
Parte XXI


Ainda em inocência, aos 12 anos, me assombrei ao ver que havia mais no olho que me olhava. Era ternura, mas de uma força que só agora posso entender. Lembro-me bem o dia. Era tarde e havíamos feito enormes construções de areia em nosso quintal. Eu era encarregada de trazer pequenas coisas: flores para enfeitar, carretéis que serviam de móveis de nossas pequenas casas e corria a seu quarto para buscar seus carros em miniatura. Meus joelhos ardiam de atrito com o chão de terra do quintal. Você não queria brincar. Sentia-se entediado por querer ser maior que sua idade. Seu interesse estava nos livros, na doença em olhar mulheres, na escrita, na poesia. Eu, ainda menina, não me importava com o mundo fora de nosso jardim. Eu possuía o que era necessário: inocência, liberdade e sua companhia. Eu era devota de meu maestro que me temperava a vida. Para mim nada mais importava. Não havia febre alguma a não ser a excessiva agonia de estar feliz junto ao meu irmão. Homem grande de idade curta. Nós brincávamos durante o dia e, à noite, dormíamos cedo para não desobedecer ordens. Mas você sabe que as ordens eram apenas nossas. Era nosso o mundo no qual brincávamos de tudo. De construir e demolir castelos. Eu me irritava quando você buscava sensações que eu poderia trazer a você assim como trazia as pequenas coisas que me pedia. Eu organizava seus dias para que pudesse brincar comigo em nosso tempo de ainda sermos juntos. Porque, se havia algo que me importunava, era saber que um dia você ganharia outros mundos e nossas tardes e nossos dias perderiam a tonalidade que tanto nos unia. Idade maior chegando, você atormentado de sonhos e eu menina demais para saber como poderia servir ao senhor de meus anos. Mas, um dia, inventei de ler um livro já lido por você. Era de poesia. O tormento maior que simplórias almas não suportam. Eu li durante uma tarde inteira enquanto você esteve fora de casa caçando ares que não alimentam. Você dizia que estava sempre com amigos. Mas era outro o seu enredo. E percebi sua verdade ao ler seus livros de poesia. Quanta vida, quanta morte, quanta vontade. Sentidos me invadiram e eu mal sabia respirar e já estava sedenta por algo que havia se tornado essencial. Eu afastava amigas, vizinhos, sorrisos. Passei a ler poemas todos os dias para penetrar no mundo de meu irmão que de mim já se sentia exausto. Dizia-me sempre para eu brincasse sozinha porque você estava cansado e havia coisas a fazer. Eu não possuía mais o menino que brincava desde as primeiras horas do dia até o fim da tarde ou começo de noite. Você crescia e percebi, ao ler poemas, que também já me excedia em idade. Eu desejava não mais o sorriso infantil. Era carne que ardia e lembro-me bem. Brincávamos sozinhos e você estava impaciente porque dizia ter algo a fazer e eu já armava planos e nunca fora indecente sua irmã. Era só poesia que me adulterava a fome. No quintal, era por do sol, voltei com brinquedos nas mãos e você não mais queria brincar. Seu olhar era imenso de espanto. Fora assim desde o início quando eu ainda era menor. Quando nasci, disseram-me que você não sossegou até ver sua irmã e queria tanto tê-la nos braços. Fomos unidos durante toda a infância. Nunca ninguém ousou me tocar porque havia você em todos os lugares. Você me guiava para ser sua sacerdotisa, alguém em quem pudesse confiar, alguém que ouvisse suas rezas de pecado durante a noite e nunca contasse seus segredos. Eu queria apenas tê-lo. E percebi que era tempo. Você me desejava à pele. Queria mais que sangue e sorrisos de irmão que protege. Você queria a mulher e eu já havia me tornado imensa como você desde o dia em que li seus livros. Ainda havia inocência. Mas era uma inocência de idolatria. E, no quintal, feito irmãos, você abriu meu corpo com suas mãos e penetrou sua alma idêntica e me fez adoecer em dormência. Eu estava completa. Era meu irmão que me fazia liberar represas de um desejo que crescera nas tardes de nossas vidas sempre tão contidas e felizes. Mas algo nos atormentava e fora eu a primeira a tomar razão. Envolta em seus braços, lembro-me bem, depois de saciados, seminus, atados em um só corpo, sorri de menina que era mulher e prometi que seria eu a desgraça a lhe corromper a vida. E hoje, ainda jovens e afoitos, visito meu irmão e abro meu corpo para que ele se faça completo. O mundo não nos entenderia acaso nos visse deitados e completos em comum acordo de perfeição. Sou mulher de meu irmão e dele nunca serei dividida. Estamos serenos, embora inquietos, desejando da fome herdada, o corpo que da semente nunca será corrompida.


É amor tudo isso? Não se sabe, não se saberá. Mas é um patrimônio de incomensurável valor para outras existências que não as nossas a prática de nossos atos. Sentimentos verdadeiros são patrimônios humanos, portanto devem ser zelados por nossas instituições de fé interna. É assim como penso. Havemos de nos prontificar para a construção de um legado de paz nos corações dos outros que nada têm. A humanidade que nos espreita pode aprender o gosto da vida conosco e com os incríveis beijos de nossas paralelas que se chocam nas bordas mais imponderáveis. É irresistível, confesso. Não posso amar de outro jeito senão te amar na irmandade de ser, do ser, de sermos. Tal bordadura imprevisível que apostou no tempo e fez dele amplificador de saudades sadias. E o que dizer das lembranças que possuímos de tudo que fizemos juntos? Daria para encher centenas de velhos baús com nossas reminiscências, não daria? Mana, eu te amo como a natureza ama a cor, como a água ama o rio, como o fogo ama o gás combustível. Explodiremos feito estrelas em supernova até o dia do juízo final. E ai de nós que praticamos o amor ilegal... ai de nós! Como devem ser suaves as queimaduras do inferno! Ah, como é belo o inferno de amar!

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Stupakoff e as lentes do silêncio



Por Germano Xavier

O velho no bar
O velho homem reclinado no balcão.
Um cigarro pela metade na altura da testa.
A fumaça enobrecendo um sentimento pálido
existente em seus olhos fechados de tanto acordar.


Os meninos nus
A bunda, abunda.
Abundantes, seios: natureza-verde, homem-cor-de-carne.
Semblantes correm do amor.


A criança de castigo
Pequenino ser.
O menino é o vértice, o encontro das arestas.
Faz da parede uma extensão de sua raiva
e se fixa na ligadura.


O cão no muro
A velha louca ladra com seu cão.
Depois sorri.


Azul
Baleias humanas
mergulhadas no azul humano
criam bolhas.
Todo ar preso do mar é humano.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Literatura pode ser ensinada?


 Por Germano Xavier

É possível ensinar alguém a escrever literatura? É justamente acerca desta problemática que a matéria "Cartas na mesa", do jornalista Jerônimo Teixeira, aborda. De maneira comparativa, o repórter traça uma espécie de resenha do livro "Cartas a um jovem escritor", do romancista peruano Mario Vargas Llosa. Nesta reportagem, o autor envereda-se no antigo hábito que certos escritores tinham de agir como verdadeiros conselheiros literários, receitando em forma de missivas as técnicas fundamentais para o bom desempenho do ato de redigir textos literários. Aprender a escrever como cânones certamente não é uma faculdade conquistada apenas com a leitura de livros de tais portes, até porque a escrita beira o "humano", e isso pouco se adquire com a metodologia livresca de determinados autores. Para os interessados no assunto, vale a pena conferir os dois textos supracitados.

Póros de janela



Por Germano Xavier

Por onde passam todas as coisas do mundo e todas as visões de um E.T.A. Hoffman destituído de pernas simplesmente enxergando o que se passa por todas as coisas do mundo e onde estão, diz a mim, onde estão todas as coisas do mundo?, por favor, diz a mim, eu te faço a pergunta, eu faço a pergunta, sou eu que faço a pergunta e eu sei que devo ficar aqui. Meu ficar extrapola meu próprio ficar. Eu sei que devo ficar aqui e olhar os olhares que irão me olhar a partir do momento que eu mesmo começar a olhar pela primeira vez estas coisas todas que funcionam em mim como extremas novidades ou possuem o dom de me parasitarem. Parecem ser todos os olhos do mundo me olhando ao mesmo tempo os poucos-muitos olhos que estão a me olhar. Eles não olham apenas, eles me observam, eles me afundam e me corporificam. Aliás, eles me espiritualizam. Perfuram a carne pouca que me protege parcialmente de todas as coisas que podem vir a me atingir, isto é, de todas as coisas do mundo. Afinal de contas, eu posso ser mal. Afinal, sou um homem e posso ser mal. A maldade está no homem e em nenhum outro lugar. Não é de agora que sei do que um simples homem é capaz de fazer se conhece de fato o que é a maldade. Não, vem de muito tempo a sabedoria que tenho sobre o que é capaz de fazer um ser humano. Eu já fiz muitas coisas e também já usei de minha maldade. E de todas as coisas do mundo (a maldade é uma delas), eu não conheço uma sequer que não modifique mesmo um pouco que seja um humano ulterior interior. Porque todas as coisas do mundo nos fazem mal, ou bem. Depende de tudo e de qual seja a coisa que esteja em jogo. Todo homem tem seus dois lados. Tipo moeda. Todo homem pode ser bom e pode ser mal. Cara ou coroa. E no fim de tudo, eu nunca fui de me reclinar diante de olhares desconhecidos. Eu vou ficar porque preciso. Ficar para sempre, talvez. Ficar para sempre, é certo. Há certas qualidades de verdade ou de certeza que só se fazem a dois. É o caso. Parece o caso. Não é caso. Pode ser descaso. Pode ser tudo. Pode ser nada. Eu sei, é alguma coisa dentro de todas estas coisas que o mundo agrega, incluindo neste todo magmático a minha nova janela. Conto mais de duas dezenas de pequenas frestas a dar sentido a minha nova janela. Minha nova janela é branca e se abre em duas metades, em duas bandas, mas eu sou um só inteiro quando chego em casa, i.e., na maioria das vezes. Mas eu também sei me despedaçar feito um quebra-cabeça difícil de montar. Prova disso é quando acho-me no direito de me economizar perante o mundo. Ninguém decide montar um quebra-cabeça quando sua cabeça está leve e bem acondicionada no tempo. A gente só monta um quebra-cabeça quando nossa própria cabeça parece estar quebrada. É quando eu decido ficar em partes, partido, e assim me parto em outros tantos, fragmento-me até o máximo possível, feito aquela partícula diminuta e absoluta muito menor que o átomo que nunca termina de se repartir em duas partes. Quando me parto eu me torno a coisa do mundo que não se reparte nunca. É uma experiência essencial. Não tem receita. Eu gosto de ser a partícula absoluta, a que sempre chega perto do fim de todas as coisas do mundo. Viver para mim é isto: chegar perto de todas as coisas do mundo. Beijar a face de todas elas, tocá-las, fazer amor com todas as coisas do mundo, senti-las profundamente, desnudá-las, fotografá-las e pô-las na memória imemorial que possuo, que possuímos, todos, sem exceção. Minha nova janela tem quatro ferrolhos e me deixa ver o alto das casas, coisa que não se enxerga fácil quando passamos andando pela rua de qualquer lugar. O que eu tenho com janelas? Eu não sei. Apenas tenho a impressão que do outro lado das janelas há sempre uma coisa de que não tenho e que me faz muita falta. O quê? Outra pergunta. Eu não sei. Janelas guardam mistérios, ocultam outros, traem nossos olhos, disfarçam aparentes impérios e mentem proximidades com o que é céu. Mexe comigo a idéia de que a minha janela branca e nova contando mais de duas dezenas de pequenas frestas possa estar a esconder algo importante de mim. Dentro do conjunto de todas as coisas do mundo há sempre uma coisa mais importante que outra. E é justamente esta coisa mais importante que outra que nos movimenta, que nos tira a condição estanque e nos obriga a caminhar na direção do conhecimento. Penso que somos aquilo que conhecemos, aquilo de que tivemos a chance de beijar a face mesmo uma curta vez na vida e que no momento do beijo permitimo-nos ser a importância daquela coisa em nós, naquela ocasião ou circunstância. O que seria importante para uma janela segurar? Sou eu que pergunto agora. Um pote dourado no fim de um arco-íris nascido após uma chuva fina? Um mapa de algum tesouro descrito em algum livro de aventura escrito por um famoso homem inglês do século passado? O que uma mísera janela pode com um ser humano? Quer saber, eu sei. No fundo eu sei. Mas eu não vou contar. Por detrás de uma janela há tanta coisa, tanta, mas tanta coisa. Basta abri-la e olhar.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Maternal matéria



Por Germano Xavier

Do que é feito uma mãe? Quem de vocês, leitores, já fez tal pergunta? Por acaso, algum cientista norte-americano com diploma de alguma universidade britânica ou mesmo um antropólogo desses que vivem estudando fósseis pelos desertos mais longínquos nos quatro cantos do mundo, ou quem sabe um psicanalista importante e renomado que se diz apto a entrar nos porões e sótãos das pessoas, alguém de vocês saberia me responder de que é composta uma mãe? Não, por favor, não pensem que é um problema banal o que estou aqui levantando. Pelo contrário, estamos diante de uma dúvida crucial que, se solucionada, poderia evitar muitos males e intempéries, digamos, advindas de inconfundíveis e maternais matérias.

Penso que, se este não for o maior enigma da espécie humana, assim um dia ainda o será considerado. Claro, eis um milenar mistério. Coisa muito mais protegida que a receita daquele refrigerante preto que todo mundo no mundo toma e que alguns tentam imitar. Confesso que fico meio cabreiro quando ouço alguém dizer aquela frase típica de quem quis fazer algo sem seguir o aconselhamento da boa e velha madre e no final bateu a cara contra o muro: “Mãe é mãe, e pronto. Precisa ser levada a sério.” Não que eu não leve a minha mãe a sério, mas tem hora que pelo amor de Deus... é de não aguentar, e isso é mesmo realmente sério.

Venha cá, meu amigo, diga-me uma coisa: sua mãe também faz tempestade em copo d’água? Sua mãe te repreende pela mínima coisa fora do lugar? Sua mãe já te esperou na porta de casa numa madrugada fria só porque você tinha saído com alguém que não merecia ou não combinava com o filho ou a filha dela, ou seja, com você? Sua mãe ainda pensa que você tem doze anos de idade e que ainda precisa lhe mostrar o melhor caminho a seguir? Sua mãe já usou de ardis emocionais para te chantagear ou obter de volta algo momentaneamente perdido? Sua mãe costuma ficar comparando suas ações porventura fracassadas com as de algum parente distante seu e que, segundo ela, conseguiu se dar bem na vida? Sua mãe... chega, não? O questionário é quase infinito, mas se você respondeu sim para algum destes questionamentos, não se preocupe, estamos no mesmo barco e a maré ainda é uma incógnita invariável.

Por falar em Deus, o Todo Poderoso lá de cima (ou lá de baixo, vai saber...) quando decidiu fazer a mulher da costela do homem certamente disse: “Das costelas que ficam mais próximas à carne do pescoço do homem brotará o ser-mais-pleno-de-todo-o-Éden, a Mulher-Mãe”, assim mesmo, com toda a sua retórica característica. Mãe, quando quer, é osso duro de roer (desculpe meus excessos de ditados populares). E põe duro nisso! Porque se engana quem pensa que só existe o par Homem-Mulher, e totalmente! São três os gêneros humanos. O Homem, a Mulher, que são feitos de carne e osso, apenas, e a Mulher-Mãe, que é o nosso objeto de estudo aqui. Este último, um estágio superelevado da condição primeira e, portanto, original de ser “apenas” Mulher (reparem que as aspas aqui estão no sentido estritamente figurado).

Olha cá nossa pequenez diante de assunto tão fundamental. Estamos aqui há bons minutos travando um diálogo e nenhuma certeza ainda fora apontada ante nossas faces. Será que vou morrer sem saber de que era feito a minha mãe? Será que você irá morrer sem saber do que sua mãe era constituída? Porque se eu soubesse que aquela sua voz alterada em dias menstruativos fosse falta de algum mineral essencial de sua composição espírito-corporal, se soubesse que aquele olhar de decepção para você em dias não muito alegres fosse uma oxidaçãozinha pouca em suas pálpebras já por demais experientes, se eu soubesse que todas aquelas preocupações exageradas eram por motivo de falta de óleo lubrificante em suas juntas, todas estas aporrinhações pelas quais passamos com nossas mães poderiam ser exterminadas num rápido instante. Mas, não, quiseram-na Dona Suprema de todos os arcanos, a Cheia-de-Graça e ai de nós, seus filhos, seus pobres filhos, que nem mesmo suspeitam do que são feitos estes tantos vãos que um dia nos pariram...

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Umbilicus



Por Germano Xavier

em nossa fábrica
fabrica-se o ilógico pano das cortinas,
das cortinas plásticas, elásticas, fluxíveis, leves
como plumas, rijas como planos,
densas como brumas e você,
este puma,
animal arisco no teatro sem vista para o ser.

em ti me junto, emplastro, me uno,
me curvo me cubro me deixo
ir

que somos feitos na mesma fábrica
com grosseiros ingredientes de iguais
e não nos conservamos. não, vamos,
e indo nos deixamos nos anos e nos amamos
na praça da fábrica que fundamos
de amor líquido, de amor sólido,
de amor-gás

tão voláteis como nossos reencontros.

domingo, 13 de maio de 2012

Mães em um domingo



 Por Germano Xavier

in-
suspeitável - é assim mesmo; conheci pessoas interessantes, daquelas que almejam um objetivo na vida. Muitas, no entanto, só fizeram firmar a certeza de que as velhas amizades devem ser preservadas; algumas são, sem dúvida, promessas de eternas amizades. No entanto, muitas pessoas só fizeram firmar a certeza...

Domingo fechado.
Acordei cedo e todos deitados. Meu irmão iria hoje. Outros também iriam. Sempre irão, é uma verdade nossa. Tive uma péssima noite de sono. Deve haver alguma coisa de errado comigo. Meu pai me ofereceu uma cápsula bonitinha, azul e amarela, mas não tomei. Sou avesso a qualquer quinquilharia que apresse o fim de uma naturalidade. Eu tinha alguma espécie de dor naquele instante, e nenhuma vontade de exterminá-la. Preferi o suco feito com três limões espremidos e sem açúcar que me veio logo depois. Aqui em casa todos ficam decaídos quando alguém parte ou vai partir. Menos eu. Bem acho que meu condão não é feérico. Sou insólito, talvez imundo. Sem mundo, mas humano. Sinto dor, sou humano. Devo me lembrar disso, pelo sempre. É Parmênides gotejando ácidos contra mim, ferindo-me, untando-me com óleos em fogo, queimando-me, avisando-me sobre minhas fraquezas - ou seriam franquezas? Não estou arejado hoje, apesar da clareza do quarto onde estou. Lá fora um servente muda de lugar blocos e mais blocos para uma pequena reforma na sala. Sinto-me artífice de um tempo de que não participo veementemente. Mas são apenas impressões minhas - e já cansa, pelo excesso. Por favor, não se preocupem com elas.

Envio-lhe esta carta com atraso porque estava esperando chegar aquele envelope. E para finalizar, nada mais oportuno do que uma citação do imortal... (rasgo no papel)... - Ao chegar, entrarei em contato. Se me deres licença, queria contar-lhe a história. Aproxima teu ouvido dos meus lábios e não perca estas palavras.

"Você me pede que inicie um discurso; eu realmente não sei por onde começar, é bem verdade que estes dias de marasmo me deixam muito preguiçoso, principalmente para criar. Pensei em escrever um poema, porém um poema comum. Na verdade pensei em escrever - lendo sonetos - um anti-soneto, mas entre o pensamento e a ação vai-se uma distância medonha. Seria, na minha idéia, um anti-soneto rodrigueano - em apologia a Nelson Rodrigues -, e fica pois o desafio lançado, se tu quiseres abraçá-lo, fique à vontade, a única coisa de que precisas saber para colocar a idéia em prática é a estrutura do soneto (rimas, versos), colocando-os sempre às avessas... (Rasgo no papel, um sujo)...

Estes dias iguais me acomodam, me deixam ainda mais preguiçoso do que já sou. Tenho plena convicção, porém, de que esta não é a rotina que um estudante universitário deve exigir de si, por isso muitas vezes sinto aquela necessidade biológica de ir em busca do conhecimento em outra "freguesia". "Quem sabe faz a hora" - eis um dos dizeres mais certos que existem -, e eu complementaria indagando: quem sabe não é a hora de fazer alguma coisa interessante? Esta pergunta deve ser feita por todos os jovens adultos e idosos do mundo que almejam um objetivo na vida. Esses dias iguais me incomodam, e de repente não me dou nem conta de que já se passam dias e dias... O interessante é que sempre que saio acontece algo de diferente, o qual sempre vem acrescentar experiência à vida. Realmente o saber das ruas, da labuta do dia-a-dia, é sempre um saber indispensável, e que poucos livros podem oferecer na solidão de um quarto, com toda a sua paz melancólica advinda de um isolamento voluntário. Por isso, meu caro amigo, saia às ruas e ouça o que o monstro - o povo - tem a dizer. "O jornalista tem de saber dialogar com todas as classes", eis o que ouvi quando conversava com um comerciante dessa cidade. O saber dos livros é precioso, pois perpassa às gerações de forma integral - conhecimentos construídos durante um período histórico -, e o saber do povo é valioso, pois além de ser matéria-prima para a criação, é a afirmação da vida enquanto tempo, marca definitivamente a certeza de que estamos vivendo, é o tempo, o que marcou a nossa efêmera passagem sobre a terra.

Juliana, perdoe-me qualquer ausência que causei em seu mundo, a gente às vezes vai empurrando o tempo com a barriga, adiando coisas inadiáveis. (Conheci pessoas interessantes, daquelas que estão sempre almejando um objetivo na vida). Muitas vezes não nos damos conta da importância que representamos para outras pessoas. Aprendi com uma segunda leitura do Pequeno Príncipe, que decisivamente "nos tornamos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos". Sinceramente, não me dei conta de que se passara oito meses desde o nosso último ... (Rasgo no papel)... o, mas com certeza estes meses não são os mesmos com que se embalam uma criança, tal a sua presença espiritu... (Rasgo no papel)... último encontro muita coisa aconteceu; ...(Linha tracejada em sentido reto, como que acertando um possível erro)... Fernando Sabino, um dos meus escritores preferidos, veio a falecer; completei u... (Rasgo no papel, final de página)... e meio; dizem que o primeiro...

Havia mais de uma mãe no meu domingo.

sábado, 12 de maio de 2012

Relatório para lábios incisivos



Por Germano Xavier

Um dos meus cômputos prediletos:
calcular os sóis e as luas de cada mulher.
(Faço isso em guardanapos em portas de cafés.)
Eis um animal astral.
Diria, constelacional, para melhorar.

Um solfejo:
toda boca de mulher é uma música.
As bocas de mulheres que usam vestidos roçagantes
pertencem ao universo dos traçados de piedade.

Homem é um bicho sem nicho, só sabe contrabalancear.
Mulher não, mulher cansa e pesa.
Mulher tem vocação para prisão de Minos.

Balancete:
quem se importa se nos exasperam por vezes?
Mulher é amor até quando mutretas de rua as desalmam.

Encarniçadas, convencidas, ardilosas, recém-banhadinhas,
mulher tem cheiro, camarada.
Diferente de homens, pombos suarentos.
Toda mulher é um cachalote, tem gorduras nas barbatanas,
e adoram tirar um sanguezinho de quando em vez.
E um amém é pouco.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Carta ao poeta Germano Xavier - Lou Salomé veio me ver


Por Ana Lúcia Sorrentino

São Paulo, 10 de maio de 2012 

Querido Germano: 

Hoje, antes mesmo que eu acordasse, Lou Salomé veio me ver. Eu não sei se se apiedou de mim, por conta da difícil semana que tive, mas veio doce e parecia cheia de vida, querendo me dar algum consolo. Estava mesmo com um ar compassivo, como se quisesse me aliviar, mostrando-me que é possível passar por tudo e sobreviver. Sua presença ao meu lado, sentada em minha cama, me dizia isso, veladamente. Trazia os cabelos soltos, e nunca, em nenhuma foto sua seu farto volume me parecera tão belo. A luz própria que eu sempre ouvira dizer que ela tem era ainda mais viva do que nos relatos que eu lera. Estava ofuscante, como se estivesse sob o sol numa pintura impressionista. Linda. 

Disse ter lido o que postei no blog, e ter se identificado tanto com minha sede de viver, que teve vontade de passar por aqui para me confortar e me dizer que me compreende. E me trouxe algumas palavras, uma pequena poesia, num papel amarelecido. Fiquei tão emocionada, Germano, que guardei o pequeno papel na gaveta da minha mesa-de-cabeceira e agora ele está lá, me esperando, para que eu o leia antes de adormecer. Não tive coragem de ler na presença de Salomé e percebi que ela me entendeu perfeitamente, consentindo, com um sorriso, que eu guardasse seu escrito. Lerei imediatamente antes de fechar os olhos, pra que suas palavras fiquem impressas em minha mente e, quem sabe, ela volte a me aparecer em sonho. 

Quando me percebeu surpresa ao saber que lera o que escrevi, me confessou que já me lê há um bom tempo e que o que a acordou para os meus escritos foi o fato de, por duas vezes, eu ter te enviado aquele lindo poema dela, em que ela nos aconselha a ousar. Percebendo tamanha admiração da minha parte, quis saber quem era essa mulher que tanto a conhecia sem que ela a conhecesse. Curiosa, passeou pelos meus textos, e encontrou neles algo que lhe agrada. Não me disse exatamente o quê, mas me olhou como se já conhecesse minha alma e tivesse por ela grande amizade. 

Disse-me, então, que quis me conhecer de perto, para poder me dizer algumas palavras de estímulo e de coragem. Que sabe das dificuldades que enfrento por não me curvar ao que esperam de mim. Que percebeu que sou um pouco rebelde e muito apaixonada. E que lhe ficou evidente que me movimento muito mais em função de meus estímulos internos do que dos externos, e tudo isso lhe agradou. Notou, em algumas das minhas poesias, questionamentos que sempre se fez em relação ao amor e às regras mesquinhas que a sociedade lhe impõe, apequenando-o infinitamente para que caiba dentro de pequenas saletas sem janelas, onde, talvez, amantes inseguros se sintam mais protegidos do que num mundo tão cheio de paixões. E se riu disso, porque, afinal, são as paixões que colorem a vida, e se os amantes compreendessem que temos uma individualidade e que nem tudo precisa ser revelado, as paixões durariam muito mais. 

Também percebeu o quanto me encantam jovens poetas, e como me relaciono bem com homens, no que se identifica comigo. Também os acha apaixonantes. Rimos, alegres, por percebermos em nós uma compreensão tão grande da outra, que parecia nem ser necessário conversarmos, tudo estava dito. E, nesse instante, percebi que sua casa deve mesmo ser a felicidade e concordei sem ressalva alguma com sua ideia de que a única perfeição é a alegria. 

Germano, ainda com um resto de sorriso nos lábios Salomé voltou a falar de você. Me contou que lhe agradou demais essa nossa amizade, porque percebeu algo de belo no nosso interesse mútuo, que nos faz crescer e produzir. Tenho pra mim que Salomé ama tanto o amor e a criação, que veio para me estimular a prosseguir, porque sabe que preciso ganhar a minha vida e que às vezes fraquejo, porque escrever ainda não me garante a subsistência. Como que me apontando uma saída, me falou dos textos que vez ou outra comercializa para cobrir suas despesas, e me disse viver na simplicidade, mas mostrou-se consciente sobre ser o meu mundo muito diferente do dela. 

Contei-lhe que nos dias de hoje, aqui onde vivo, é preciso se trabalhar muito para se viver com um mínimo de dignidade, mesmo que tenhamos um estilo de vida simples, e que nossos valores morais se sobreponham aos materiais. Mas não me prolonguei nesse assunto, por achar que Salomé poderia considerá-lo enfadonho, uma vez que é enfadonho de fato. 

Perguntei-lhe então se também lia seus textos, Germano, e ela me disse que lera apenas uma poesia sua, por estar entre as minhas. Justamente a poesia que você me dedicou, naquele dia em que eu estava injuriada por ter sido ofendida por um leitor mal-educado. “Não deixe de escrever”. Obrigada, mais uma vez, Germano. Sua poesia transformou aquele dia que havia começado tão mal num dia feliz. Creio ter sido essa poesia que fez saltar aos olhos de Salomé o quanto de positivo há no nosso relacionamento, poeta. 

Mas, embora tenha lido apenas essa poesia, ela leu a carta que você mandou pro Rilke, porque ele falou sobre você e sobre a carta com tanto carinho e respeito, que a curiosidade a fez pedir-lhe que lhe mostrasse. Leu sua carta ao lado de Rilke, e me disse que os dois se emocionaram. E que a resposta que Rilke lhe deu, na verdade, já pressupunha a sua resposta aos questionamentos que ele lhe fez. Que simplesmente pela beleza de sua carta, Germano, já seria possível, mesmo sem ler qualquer poema seu, concluir que não poderia viver sem escrever. Se Salomé e Rilke se emocionaram juntos ao ler sua carta, quem não se emocionará ao ler suas poesias? 

 Por fim, Salomé me passou um recado de Rilke, pedindo-me que o repassasse a você. Na verdade, um pedido. Pediu que continuemos a amar e a criar, porque assim os deuses jamais nos abandonarão. E que não nos percamos buscando grandes propósitos, porque a vida está nas pequenas coisas, como nas grandes. No que é apenas visível e no que é imenso. Quero que sinta, daí, a certeza que estou sentindo aqui. E que, como eu, prossiga, sem vacilações, e contando comigo. 

Hoje, meu amigo, não há cético convicto ou sofista talentoso que, mesmo com irretocável retórica, me convença de que o afeto que nutrimos um pelo outro, por se dar nesse mundo virtual, seja irreal. Aliás, você sabe que jamais considerei o virtual irreal. Se não pudéssemos amar quem não podemos tocar eu não poderia amar Proust nem você Drummond. No entanto, bem sabemos o quanto podemos ser intimamente tocados, mesmo sem sermos tocados fisicamente. E o quanto, muitas vezes, quem nos toca fisicamente não chega sequer a resvalar em nossa alma. 

Essa visita de Salomé me caiu como uma bênção, um endosso a tudo o que tenho feito e um estímulo para prosseguir, confiante. Se Salomé me compreende como nenhuma irmã ou amiga jamais me compreendeu, não preciso mais de compreensão alguma. Que esses mortos-vivos que se arrastam por aí fiquem no mundo dos mortos, por que estou irreversivelmente amasiada com a vida. 

Germano, desculpe-me pela extensão da carta. Mas a presença de Salomé me colocou em tal estado de alegria que mal posso me conter e qualquer mínimo detalhe desse encontro e do que provocou em mim me parece importante demais para ser omitido. 

Vou agora em busca da poesia que Salomé me deixou. E embora saiba ser grande a possibilidade de nada encontrar na pequena gaveta de minha mesa-de-cabeceira, isso é absolutamente irrelevante, porque sua passagem por aqui já me impregnou toda. Estou poesia pura. 

Um abraço apertado, Analú.


Links relacionados: 

Para saber um pouco sobre Lou Salomé: http://eternamentelou.blogspot.com.br/ 

A carta de Germano Xavier a Rilke: http://oequadordascoisas.blogspot.com.br/2010/12/uma-carta-para-rilke.html

A poesia que Germano Xavier me dedicou: http://oequadordascoisas.blogspot.com.br/2012/04/nao-deixe-de-escrever.html

Labareda


 Por Germano Xavier

o fogo está sobre a cabeça
e não queima: só silêncio.
só há passo e poeira,
nem futuro nem desvão.

é lenha, é lenha, a vida,
é linha de contramão.

quem desanda o rumo
e quem esquece o prumo
nunca vê a brasa de um coração.

19º poema-imagem/imagem poema da série Preto-e-Branco: Poesia.
Fotografia de Daniela Gama.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Cidadão Kane (uma impressão)



Por Germano Xavier

A vida de William Randolph Hearst, tido como o criador do "jornalismo amarelo" ou sensacionalista, transformou-se no pano de fundo ideal para a montagem do filme "Cidadão Kane", dirigido por Orson Welles, que também exerceu o papel do protagonista (Kane). O filme não chega a ser considerado uma biografia cinematográfica do empreendedor e milionário norte-americano William R. Hearst, pois deixa transparecer enormes discrepâncias entre a vida de Hearst e a que é mostrada na película, principalmente quando se trata da sua infância. Todavia, "Cidadão Kane" é uma produção que escancara alusões fortíssimas ao magnata da comunicação.

Numa trama que revolucionou a maneira de se produzir cinema em todo o mundo, Welles, utilizando-se de inovadores elementos e de novos métodos, como o uso de "flahsbacks", acabou por fomentar também um novo cinema, mais dinâmico e ousado. O longa tem cenas duradouras e sem corte, sombras, tomadas de baixo para cima, distorção de imagens com a finalidade de aumentar a carga dramática, e muitas outras novidades que fizeram de "Cidadão Kane" um dos filmes mais bem elaborados da história da cinematografia de todos os tempos. Bastante elogiado e dono de inúmeras críticas positivas, o trabalho conta a trajetória do empresário da imprensa Kane, que é reconstituído através de uma minuciosa investigação feita pelo repórter Thompson. Esse, durante todo o transcorrer da encenação, tenta desvendar o possível significado da derradeira palavra pronunciada por Kane: "Rosebud". O repórter consegue entrevistas marcantes e fundamentais com pessoas que fizeram parte do círculo pessoal do empresário.

Através dessas entrevistas, Thompson foi capaz de traçar um perfil detalhado de Charles Foster Kane. O "Cidadão" teve uma infância pobre (enquanto que a infância de William fora recheada de regalias), mas torna-se herdeiro de uma verdadeira fortuna. Depois de ter experimentado investir o seu dinheiro em diversos segmentos do mercado, Kane resolve dedicar-se a um dos negócios menos rentáveis e seguros da época: um jornal impresso convencional e de pouco prestígio. Dono de uma ambição de proporções colossais, mascarada, de certa forma, por uma perturbação interna, Kane realiza uma de suas primeiras ações tendo em vista o progresso de suas aplicações: contrata "estrelas" dos jornais concorrentes, trazendo para o seu domínio a maior "artilharia" jornalística daquele momento.

Está germinado aí um campo propício para o desenvolvimento e atuação de um jornalismo mais agressivo e com fundamentos sensacionalistas, que acabou por provocar uma onda de discussões e de questionamentos condizentes à sua valia para a sociedade. Com o passar do tempo, Kane perde suas maiores virtudes e passa a transparecer mais defeitos que qualidades. Com a sua morte, renasce o sentimento de poder, de construção de sentido da imagem, uma vez que a nação entra em colapso, e morre também uma grande parcela daquele sentimento que nele era tão aflorado. A nação se comove, a nação pára. Num esforço metalinguístico, "Cidadão Kane" esclarece um pouco do idealismo norte-americano, retirado de uma vida bastante atribulada, de conquistas e de fracassos, guardando o ilustre título de ser uma das obras primeiras do cinema mundial.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

A leitura de diversos gêneros textuais


 Por Germano Xavier

Metodologia indispensável no processo ensino-aprendizagem 

É o texto o personagem principal deste texto. Para ser mais emblemático, o texto e o seu poder perante o ser humano e a sociedade. É fundamental salientar toda a capacidade que, tomadas as suas devidas particularidades, o produto textual possui de interferir no comportamento do homem e do meio em que vive. Partindo do pressuposto de que a sociedade molda o indivíduo, somos levados, quase que por efeito de um impulso, a imaginar que o homem é um ser estático, indolente. Todavia, sabe-se que somos nós os maiores transformadores desse complexo social e que o texto é a nossa arma mais poderosa e eficaz para a realização de tal processo (ou deveria ser). É através do argumento escrito/falado que a figura do cidadão, aquele possuidor de direitos e questionador das ações que o atingem, é fomentada. Faz-se de extrema importância esclarecer a função do texto para todos os indivíduos, pois é ele que vai promover o intercâmbio de ideias, pensamentos e atitudes; é ele que vai conseguir construir uma rede de aprofundamento e de crítica dentro da própria condição de humanidade de cada um; é ele que vai gerar o desenvolvimento da consciência e da razão – mesmo tendo a nítida impressão de ter sido aqui muito reducionista, posto que tal fato abrange muito mais fatores positivos para o desenvolvimento da vida em comunidade. O homem é o responsável por dar funcionalidade e também por empregar os devidos valores ao produto textual, priorizando os aspectos mais úteis – para isso, não descartando também as peculiaridades de cada gênero textual. O uso sábio de todos estes recursos também é de grande valia para o progresso dos homens enquanto produtores de conhecimento. Saber usar de todo o potencial linguístico em prol do bem viver é, talvez, um dos maiores desafios do homem transmoderno. Adaptar-se, por sua vez, é o termo de ordem nesse mundo de inestimável interação global.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O que vi não vi

Ilustração de Cida Mello.


 Por Germano Xavier

Pensei cor
Pensei voo
Pensei vento
Pensei forma
Pensei caracóis
Pensei olhos
Pensei melenas
Pensei rabos
Pensei penas
Pensei sol
Pensei pomba
Pensei paz
Pensei mar
Pensei Turquia
Pensei pérola
Pensei Fênix

No fim, só vi o que não vi.

domingo, 6 de maio de 2012

Newsmaking


 Por Germano Xavier

Os valores/notícia e o emprego dos critérios de noticiabilidade no ambiente jornalístico (com análise do periódico Diário da Região, da cidade de Juazeiro-BA). 

“Dois executivos de uma cadeia de televisão norte-americana assistiam a três telejornais ao mesmo tempo. Uma das notícias do dia relatava um incêndio num orfanato em Staten Island. Após o final da reportagem, um dos executivos lamentava-se porque uma televisão concorrente tinha melhores imagens na sua reportagem. ‘As chamas deles são mais altas que as nossas’. Mas o outro executivo respondeu: ‘Sim, mas a nossa freira chorava mais alto que as outras’”. (Diamond, 1976, p.11) 

Separar o joio do trigo, como quando se deseja o deleite por sobre os melhores grãos. Peneirar, deixando vazar apenas o mais fino da matéria. Cessar, no balanço do instrumento movido pelas mãos do operário, a nos remeter imagem de construção, de desenvolvimento e de progresso. Talvez esteja aqui definido, em sua total clareza, inteireza e simplicidade, a digna tarefa que o profissional da área do jornalismo deve realizar, seja em que modalidade de trabalho for (impresso, radiofônico, digital, entre outros). Selecionar o que é de essência/ou de essencial no conteúdo que se quer propagar. 

Todavia, o jornalismo, em sua antiga tentativa de legitimação, acabou criando diferentes formas de controle e geração de material noticioso. Segundo o teórico da comunicação Mauro Wolf, a noticiabilidade define-se “como o conjunto de elementos através dos quais o órgão informativo controla e gera a quantidade e o tipo de acontecimentos, de entre os quais há de selecionar as notícias”. E é nesse contexto em que estão inseridos os valores/notícia, aos quais o próprio Mauro os definiu “como um componente de noticiabilidade”. 

Indubitavelmente, caso não existissem tais critérios de análise do material de cunho jornalístico com prováveis chances de compor um espaço nos diferentes Media, todo o processo de “fabricação” da informação seria prejudicado, haja vista que um “caos construtivo” seria germinado no ambiente de trabalho, o que acabaria desotimizando todas as relações de produção, que vão do recolhimento e busca do fato propriamente dito até a chegada às mãos dos leitores/consumidores, passando pela lapidação e limpeza dos canais de difusão da mensagem, tornando mais nítida e eficaz a sua transmissão e entendimento do seu teor por parte dos receptores. 

Todo esse processo seria de uma simplicidade tamanha. Seria, caso houvesse a prática da liberdade de expressão por parte dos jornalistas. Entretanto, como João Canavilhas diz, “o processo informativo não é um sistema livre de influências externas aos atores informativos. A política, a economia e a religião são exemplos de fatores que podem influenciar o processo de produção noticiosa”. E, diante disso, perguntamo-nos: quais são os acontecimentos que podem ser considerados mais expressivos e relevantes, e que, por isso mesmo, possuem características que os fazem propícios para serem transformados em notícia? 

Eis que um dos exercícios mais dispendiosos da rotina de trabalho jornalístico, e que, por sua vez, necessita do máximo de cuidado e sensibilidade disponível... É preciso salientar que, cada um dos valores/notícia funciona em dependência dos outros critérios de noticiabilidade. Tudo está inteiramente relacionado, como numa engrenagem onde cada peça complementa a outra. Os valores/notícia são, portanto, segundo Mauro Wolf, “regras práticas que abrangem um corpus de conhecimentos profissionais que, implicitamente, e, muitas vezes, explicitamente, explicam e guiam os procedimentos operativos redatoriais... Os valores/notícia são qualidades dos acontecimentos, ou da sua construção jornalística, cuja presença ou cuja ausência os recomenda para serem incluídos num produto informativo. Quanto mais um acontecimento exibe essas qualidades, maiores suas possibilidades de ser incluído”. 

Algumas dessas qualidades podem ser traçadas aqui, de uma maneira breve, como por exemplo: o momento do acontecimento (quanto mais atual for o acontecimento, mais probabilidade de adentrar em um espaço noticioso. Em se tratando de televisão, o fato fica ainda mais evidente); a intensidade do acontecimento (aqui há uma análise da proporção que tomou o fato ou, ainda, a dimensão que ele pode tomar); a clareza (quanto menos dúvidas o acontecimento provocar, mais chances ele terá de ser incluído como material jornalístico; a proximidade (quanto mais próximo da população e do público a que o veículo jornalístico se destina, mais provável a inclusão); surpresa (aqui a questão ddo inesperado conta pontos a favor de sua projeção); continuidade (se o caso não sofrer uma sublimação e permanecer vigente sobre o restante das discussões, ele provavelmente terá maiores chances de se transformar em notícia; a composição (aqui aumenta-se a atenção para o fato do acontecimento conseguir dialogar com uma área ou temática diferente daquelas usuais e corriqueiras. Quanto mais diversificado o assunto, mais propício ele estará a ser incluído, já que existe uma necessidade muito grande no bom jornalismo, que é o de saber diversificar os temas abordados); valores socioculturais (quanto mais o tema mexer com os padrões culturais de uma dada comunidade, maior será a probabilidade de ser transformada em notícia); valor das imagens, previsibilidade e gastos de produção também são outros valores/notícia que valem ser conferidos. Outras qualidades específicas que fazem com que um acontecimento se encaixe em um aparelho noticioso, e que, posteriormente, podem alicerçar uma forte discussão com a sociedade por mera imposição do veículo são: o grau e nível hierárquico dos indivíduos envolvidos no acontecimento noticiável, o impacto sobre a nação e sobre o interesse nacional e o interesse frente à concorrência e ao mercado propagandístico. 

Na verdade, o principal objetivo do emprego dos valores/notícia é a tentativa de rotinizar a tarefa jornalística. Para que totó esse mecanismo funcione de forma rápida e adequada, é preciso que todas as peças estejam devidamente encaixadas, sem nenhuma folga ou anomalia. Tudo isso para que a utilização e a veiculação dos critérios de noticiabilidade, o que implica na aplicação dos valores/notícia, ocorram de maneira automática e instantânea. No entendo, é preciso deixar claro que essa aplicação não representa uma espécie de “cartilha” rígida e indefectível, tendo em vista que o emprego dessas características fundamentais são flexíveis e totalmente utilizáveis em todos os ambientes do jornalismo. 

Todavia, essa instantaneidade, no que diz respeito à escolha do material, não deve ser confundida com arbitrariedade e, tampouco, com objeções sem fundamentação. 

Com relação ao jornalismo praticado na região do Vale do São Francisco, e que é o principal objetivo desse texto, em princípio foi realizado uma entrevista com a repórter Ana Lima e o editor-chefe do periódico “Diário da Região” (jornal fundado em 23 de dezembro do ano de 1972 na cidade de Juazeiro-Bahia e que circula nesta cidade e em suas proximidades), Antônio Pedro. Posteriormente, foi feita uma análise crítica de dois exemplares do jornal (22/24 de julho de 2006 e 29/31 de julho de 2006). 

Num olhar de esguelha, constata-se uma deficiência no embasamento teórico dos profissionais que produzem o noticiário, o que dificulta o recolhimento de informações mais precisas para o fomento desse trabalho. Percebe-se a predominância de matérias de cunho político (partidarismo), inclusive nas propagandas. Há, também, o gosto pela espetacularização dos acontecimentos, que pode ser identificado desde a escolha das manchetes até o corpo das notícias. As fotos também ajudam a manter essa característica que, creio, não é positiva. Aqui, os valores/notícia (critérios de noticiabilidade) mais utilizados /visíveis foram: o momento do acontecimento, a proximidade, surpresa, valor das imagens, o grau e o nível hierárquico dos indivíduos envolvidos no acontecimento noticiável e o interesse frente à concorrência e ao mercado propagandístico. 

Os critérios de noticiabilidade permitem distinguir o que é notícia do que é apenas acontecimento. E, como diria Tuchman, “selecionar implica reconhecer que um caso é um acontecimento e não uma casual sucessão de fatos”, o que também inquieta àqueles que leem o jornal e que possuem um olhar mais acurado sobre os procedimentos usados pelo periódico. Fica a esperança de que um dia haja, em todos os ambientes em que a notícia é a matéria-prima, a capacitação necessária para o bom desempenho do jornalista enquanto responsável pela informação diária de inúmeras pessoas. Assim, dessa maneira, continuemos... 

Referência Básica 

WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação. Lisboa: Presença, 1987.

sábado, 5 de maio de 2012

Árvore por testemunha


 Por Germano Xavier

você no parque esteve sozinha
vigiando formas que foram minhas
só imaginar não te angustia?

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Um pouco de Sociologia da Educação


 Por Germano Xavier

• Para Karl Marx e Engels, o fundamental é associar a educação ao trabalho, visando dessa forma a implantação de escolas politécnicas, ou seja, ao mesmo tempo que o indivíduo é preparado intelectualmente, ele também é capacitado para exercer determinada função com mais capacidade; 

• Para Émile Durkheim, a educação é o meio que a sociedade usa para incutir nas gerações futuras suas heranças culturais, seus costumes, valores vigentes e isso sem que o indivíduo possa discordar ou não de determinada instrução que lhe está sendo passada. Ao invés da educação possibilitar uma amplitude maior de visão de mundo, ela condiciona o indivíduo a se tornar estático, mesmo através do processo educativo; 

• O fundamental para Max Weber no processo educativo (e isso numa tradução bem mesquinha) é a possibilidade de adquirir diplomas, com o intuito de ocupar cargos cada vez mais altos, sem falar na obtenção do prestígio social que o diploma lhe proporciona; 

• Karl Marx e Max Weber viam a educação como uma possibilidade de mudança social, já Émile Durkheim discordava dos dois por achar que o processo educativo não poderia trazer transformação social; 

• “Por técnicas sociais refiro-me a todos os métodos de influenciar o comportamento humano de maneira que este se enquadre nos padrões vigente da interação e organização sociais.” (Émile Durkheim); 

• Uma pergunta: não estaríamos nós, sociólogos da educação, mais uma vez construindo as teorias que interessam ao momento político? (Aos sociólogos da educação...); 

• Em primeiro lugar, a divulgação do conhecimento trazendo a reflexão que produz a crítica é comandada pelo professor. E não sabemos bem de que lado vai estar o professor. (Ao professor sem compromisso com a educação e que é parcial...); embora as pesquisas mais recentes mostrem o professor, ele mesmo, como vítima da violência, via salário precário e descaracterização da profissão. (Ao Estado, por não valorizar o professor como meio de transformação social...) A violência simbólica, bastante sutil, emana muitas vezes do livro didático que o professor utiliza. (Crítica ao livro didático, que não dá ao professor o suporte para trabalhar com os alunos...); 

• “A existência de técnicas sociais é particularmente evidente no exército, cuja influência repousa principalmente sobre a organização, o treinamento e disciplinas rígidas e sobre formas específicas de autocontrole e obediência.” (Karl Marx); 

• “... mas também na chamada vida civil, as pessoas tem de ser condicionadas e educadas para ajustarem-se aos padrões dominantes da vida social.” (Max Weber); 

• E aí, para que time você torce?

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Iraquara - Em memória de nós


Por Suzana Durães

Germano Viana Xavier é poeta, escritor, jornalista e professor. Dessas pessoas que a gente mal conhece e já admira profundamente. Há nele tal poder de se fazer amar. Com um instinto descobridor de essências dedilha versos-pensamentos-palavras entremeados de simbologias e estética surpreendentes. Sintaxe manejada com destreza e caos. Na mansidão voraz de sua lavra vamos ora embevecidos, ora agonizantes, fruindo, fluindo em suas formas-pensamentos com a absoluta certeza de que ficar sem elas já nos é impossível. E sem cautela nos embrenhamos em suas dilacerantes construções que mais se assemelham às agulhas de aragonita das grutas de Iraquara, donde saímos às vezes arranhados e descobertos, porém desejosos de retorno e deleites. Em seu livro-reportagem Iraquara: em memória de nós, 2009, Germano Xavier busca efetuar um resgate histórico-memorial de sua cidade através do gênero crônicas. Segundo o autor afirma, ainda não é um livro, é a parte de um que levará a vida inteira para ficar pronto porque é o livro de sua vida. Obra que por ser “inacabada” impressiona pelo traçado singular de suas narrativas. Consciência, verdade, amor são palavras que bem descrevem o lavrar dessa obra. “[...] Ao contrário do que possa parecer, Iraquara, só estou cuidando um pouco de ti. [...] Eu perdi minha cidade, cidade que nem só das grutas será, mas que a ela pertenço. Eternamente. Ternamente. [...]”. O sentimento de pertencimento e separação são sangrias abertas no coração do homem marcado por partidas e chegadas. Retratos da infância, aspectos dessa terra e de sua gente, não passaram despercebidos ao olhar atento desse viandante. Resquícios de alegrias e saudades transparecem nas histórias contadas por Cícero, na loucura sã de Fone, na beleza sensível de Maria Neta e nos tantos outros personagens-pessoas retirados com gentileza de sua memória. Crônicas apuradas revelam as sutilezas de um menino interiorano que viveu uma infância feliz. Na Ladeira de Maria o encontramos em descida desabalada com sua Monark BMX amarela, feito Ícaro, já alçando altos voos. Num misto de realismo e ficção, o autor exorciza a memória, revirando o baú ainda jovem das lembranças e com minúcias nos presenteia a história de Iraquara. Sua origem, singularidades, sítios e personagens. E no meio de tudo isso, uma linda história de amor. Não uma história comum, banal, entre um homem e uma mulher, mas o amor infinitamente traçado entre o homem e a máquina. Ela: uma Olivetti Lettera 25 portátil, de origem mexicana. Mas daí conhecer todo o teor dessa narrativa, só com a publicação da obra. Um livro que merece ser aguardado com a costumeira ansiedade de um leitor que prevê um bom enredo.