sábado, 8 de janeiro de 2011

Coisas de pai



Por Germano Xavier

Que meu pai é um romântico antigo, disso eu não duvido. E que ele vive me surpreendendo, também não é nenhuma surpresa. Mas eu não esperava arrancar uma pequena historieta resumidora de um tempo iraquarense quando pedi que ele fizesse, para mim, e por motivos de atividade em um dos cursos que fazia, um curto retrato de seu trabalho como cirurgião dentista. E ele me veio com uma matéria-prima boa para uma futura crônica do livro-reportagem que estou escrevendo. Eis a resumidela, meio-pai-meio-profissional...

“Meados de 1974. Eu chegava à cidade baiana de Canarana, trazendo juntamente com a minha pequena bagagem um velho consultório e um diploma do curso superior em Odontologia. Naturalmente, trazendo comigo, também, as esperanças e os projetos peculiares a todo recém-formado. Aqui instalado, fui nomeado diretor do posto de saúde local pertencente à Fundação do Estado da Bahia. Cargo este preenchido por mim em função da inexistência de médicos na região. Procurei desenvolver um trabalho voltado para a odontologia, não sendo possível dar continuidade devido às dificuldades da região em oferecer uma infra-estrutura básica para a realização de práticas odontológicas, como luz elétrica, água e saneamento básico. Com vistas a tais problemas, passei a atuar mais como profissional voltado aos atendimentos básicos em saúde pública. Transcorridos dois anos, foi criado o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e, conseqüentemente, presenciou-se a chegada de energia elétrica e do sistema de abastecimento de água. Trabalhando como cirurgião dentista da respectiva instituição, por algum tempo pude sentir a real necessidade que a comunidade inteira tinha, no que tange à saúde bucal. Após isto, fui convidado a assumir um cargo na área de saúde da cidade de Iraquara, também na Bahia. Aqui chegando, deparei-me com os velhos problemas de sempre, pois a cidade também não oferecia a mínima condição de praticar uma odontologia correta. Passado algum tempo, um velho casarão fora reformado e iria servir para que o médico filho da terra, recém-formado, pudesse trabalhar. Inicialmente eu associava uma pequena dose de odontologia com outra de medicina. Na parte odontológica, só tratamentos básicos sem nenhuma prevenção. Era tudo feito à base da improvisação e até hoje lembro, claramente, num dos cantos da sala, da existência de uma velha cadeira de dentista e de poucos boticões (alicates). Apenas nove alicates. Alguns anos à frente, a estrutura foi se expandindo e eu passei a trabalhar separadamente no meu consultório onde hoje funciona o Fórum da cidade. Já um pouco conhecido na região, porque as pessoas que visitavam a clínica médica terminavam por ficar sabendo que ali também trabalhava um dentista. Era a única forma de fazer marketing, na boa e velha forma do boca a boca. Meios de comunicação como rádio, jornal, não existiam. Só depois de um bom tempo é que começamos a observar avanços em todos os setores existentes na região, naturalmente obrigando as autoridades municipais a se preocuparem mais com a saúde da comunidade. Criou-se o Centro de Saúde local, onde pude realizar procedimentos odontológicos dignos. Por motivos outros, tive de residir na vizinha cidade de Palmeiras, onde prestei por aproximadamente dois anos um serviço odontológico de nível mediano. Regressei para Iraquara e a partir daí já me instalei definitivamente, fazendo aqui residência, onde construí o meu próprio consultório. Como profissional, pude, ao longo destes mais de trinta anos, oferecer meus modestos trabalhos a uma população evidentemente carente. O progresso chegou e naturalmente também chegaram novos profissionais que vieram somar com os veteranos. Hoje já estamos vivendo uma situação totalmente diferenciada, posto que estamos a presenciar a implantação de um sistema odontológico bastante elogiável. Há os Centros de Saúde em todas as áreas do município, o Programa de Saúde da Família já está operando a todo vapor, novos profissionais estão chegando, clínicas estão surgindo, os meios de comunicação já são visualizados e, por fim, aquilo que eu mais esperava: ver meu filho Gustavo Viana Xavier formado e atuando no Centro de Referência Odontológica da cidade. E tenho certeza que, antes da minha morte, ainda vou poder ver Germano Viana Xavier sendo destaque nas colunas de jornais deste país.”

3 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Dentista 2 - Dentist 2
by ~Cruz-Del-Sur"
Deviantart

Dauri Batisti disse...

Bonita a atenção que você em suas letras dá ao seu pai... o carinho se esparrama. Bonita também a palavra em relação a você que está na última frase. Bom ter assim a confiança do pai, a convicção que ele deposita nos seus talentos, né?

Abraço

Wilson Torres Nanini disse...

Germano,

o dentista, o pai e o filho, uma trindade que germina um poetescritor.

Forte abraço!