quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Tango eterno



Por Germano Xavier

Levamos sempre a parte que nos falta. Embrulhados e formidáveis, levamos, quando saímos, também nossas proezas e nossas vinganças. Apavorados, berramos cinturados por látegos e grilhões. Nossas imediatas evidências são os ápices de quando conhecemos as coisas. Precisamos sempre do primeiro encontro, ainda puro, sem análise, sem estudo de caso, sem tese. Assim o flúmen desce a correnteza banindo dérbis e outras maiores sentenças heráldicas. Os tangos sempre existem e também esquinas por onde os sinos dobram badalos. Somos diversidades iguais, em tons entusiastas, no passo de uma mazurca noturna, mentalizando deuses, arrancando confirmações, iludindo nossos sentidos, fabricando supremacias, centrando e desacoplando geometrias e álgebras. Ela trouxe à baila nossa verdade e foi para ela que escrevi minha febril penitência. Eu estava saindo de casa. Dormi pouco e muito era. Não dava mais. Insuportável esfera de doer no peito, machucando minha infância de amar. Dor no peito que é passeio sem mãos. Eu saía de casa, àquela hora da noite, chuva em ópera, pássaros acuados, e era eu quem regressava. Era eu quem voltaria a vê-la trôpega, preguiçosa, o sempre tropeçar no pano sempre da porta do banheiro. Aquele dela vestidinho de menina roceira, rocio de madrugadas da gente, égua cavalgando meus pastos, patos e lagoas, patos. Eu singraria toda aquela água negra e côncava, encharcado no meu próprio charco, meu defunto, atirado em êxtase, e também vivo, pirata que eu era, saqueador, afanador de tesouros, perfurador de petróleo.


Foi para ela que escrevi a palavra que escorria de mim.
Nosso tango, rodopiado sob o teto do Grand Palais.

5 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

".1.
by ~fe-e"
Deviantart

Alicia disse...

A parte que nos falta é a que mais amamos.

Fred Caju disse...

Sensacional! Muito bom, meu nobre!

Laísa disse...

senti as palavras dançarem aqui.
muito bom!

Letícia Palmeira disse...

I hear in my mind...

Muitas palavras:

"Embrulhados e formidáveis" pode ser título de um conto. Ou poema.

Látegos, ápices, flúmen, dérbis, álgebras, ópera, trôpega, égua e muitas outras sem o sinal gráfico, mas o fonema está lá, tônico e forte para que todos leiam.

Você não escreve à deriva,
Arma tudo muito bem.
Talento perfeito.