segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Indelicados tempos


Por Germano Xavier

Entrei em um supermercado Bom Preço no bairro de Brotas, na capital baiana, era ainda fim do primeiro mês do ano que vigora. Eu estava passeando com meu primo Mathias, de pouco mais de 10 anos de idade, quando resolvi comprar um pacotinho de barras de cereal. Preço da guloseima: R$ 3,98. Eu tinha cinco reais no bolso. Ok, vou levar - disse comigo mesmo. Mas aí, próximo ao caixa, deparei-me com uma destas prateleiras giratórias repletas de livros de bolso que tomaram conta do Brasil. E fui girando, girando, Proust, Flaubert, Lima Barreto... girando, girando e opa!, quatro reais e quatorze centavos o livro Tempo de delicadeza, do poeta Affonso Romano de Sant'Anna. Uma promoção! - livros estão custando os olhos da cara, concorda comigo?, o que é uma pena, principalmente em se tratando de um país tão necessitado como o nosso. O resto da história vocês já devem suspeitar. Falei para Mathias recolocar o pacotinho em seu lugar de origem e paguei pelo livro. Nada mal. Voltamos para casa e logo li a primeira crônica, que tem o mesmo título do livro - sim, o poeta é também um craque da crônica. Dali por diante não desgrudei do meu mais novo objeto. Como sugere o nome da obra, Affonso objeta que o leitor olhe mais atentamente para o mundo que está acontecendo, que está sendo produzido a toque de caixa através de relações humanas cada vez mais contraditórias, fumaçando e atravessando o tempo com uma pressa que beira o absurdo. São pequenos e doloridos beliscões dados na carne de nossa epiderme, tudo no intuito de fazer com que despertemos de um sono de olhos e mãos. Para isso, o autor esbanja intertextualidade, a todo momento remetendo-nos a outras paragens, sejam elas no campo filosófico, antropológico, sociológico ou poético. Não menos fascinantes, as crônicas que demarcam certas experiências pessoais vividas pelo escritor mineiro também encantam de maneira igual, como a que relata o dia em que viu o doutor Fritz operar uma multidão com métodos que, contrariando o que diz o ditado, nem Freud explicaria. Para quem gosta de crônica, como eu, trata-se de um livro indispensável. Affonso Romano foi o substituto de Carlos Drummond de Andrade na coluna que assinava no Jornal do Brasil, quando este nos deixou em 1984. Certamente é ele o cronista que mais admiro na atualidade. O pior de tudo foi depois ter parado para refletir e ter percebido o que eu tinha feito. Meu pequenino primo talvez tivesse passado fome naquele momento ou simplesmente ficado com uma imensa vontade de saborear uma deliciosa barrinha de cereal - e por minha causa, vejam só! -, haja vista o sol escaldante e o calor úmido típico de Salvador... enquanto eu me deliciava com o "suculento" livro que tinha acabado de comprar numa imperdível liquidação. Ah, quanta indelicadeza! - suspirei. Mas um dia ele vai entender.

3 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"since august
by ~Pis7li"
Deviantart

Cacá - José Cláudio disse...

Ainda mais se ele também se tornar um ávid leitor, haverá de perdoá-lo, sem dúvida. Afonso Romano é grandissíssimo! Abraços, Germano! Paz e bem.
PS: Hoje mesmo li uma crônica dele falando com tal delicadeza sobre a mulher madura, que fiquei boquiaberto, por ser um tema pouco tratado em nosso país machista, onde só se costuma exaltar as mulheres jovens.

Está aqui, caso queira ler: http://marmel0.blogspot.com/

Dauri Batisti disse...

é, ele vai entender, um dia ele vai entender, decerto... Conheço o livro, mesmo sem ser um grande admirador do Affonso Romano