sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Eu e o velho asteróide



Por Germano Xavier

A cidade de São Salvador era o destino. Tinha acabado de pegar o ônibus das 20 horas. O Emtram ia com pouco mais da metade de sua capacidade preenchida e a plaqueta apontava como itinerário final um lugar chamado Paraguassu. Tudo muito rápido, veloz como o ano que começava. Muitas pessoas da minha cidade natal entraram comigo. Tudo parecia parecer muito familiar.

A mochila nas costas, direcionei-me à poltrona 33, janela. Eu que sempre gostei de ficar na janela, olhando para o mundo... "Como uma luva", pensei. Não demorou muito, Ávila, conhecida e filha de Iraquara também, sentou-se ao meu lado. Rememoramos infância, adolescência, cidades, amigos, experiências, suplicamos sonhos, falamos sobre livros, filmes e música, sobre amigos que partiram mais cedo que a gente para mundos ainda inatingíveis, sobre quase tudo ou quase todos...

Conversa vai, conversa vem... e a noite noturna, aquela em que os homens teimam em "desver" e acabam dormindo, apontou no céu azul-negro que eu via da janela. De repente, uma estrela cadente!!! Tentei agir. Pedi saúde para os meus pais, e aquela estrela - seria o asteróide B612, transportando O Pequeno Príncipe? - levou meu pedido para o desconhecido.

Duas da manhã, levantei a cabeça. Nenhum sinal de vida, apenas uma luzinha acesa na primeira poltrona. "Alguém lendo", imaginei. Um dia a leitura ainda vai salvar o homem. O ônibus sacolejava, parecia querer tombar nas curvas da Chapada. E eu gostando de me sentir vivo, ou melhor, morrível. Para mim, a beleza da vida está na impressão de que se pode morrer a qualquer instante. É por isso que vivemos, para morrermos lentamente em esquiva eterna e com dignidade.

Esperei Ávila dormir, depois acendi a luzinha de leitura. Comecei a ler uma matéria intitulada "Angústia, um sentimento positivo", numa revista sobre filosofia. A autora, Olga Hack, bem diferenciava os aspectos negativos e positivos do sentir-se angustiado, e eu me degustava com o bom texto. Num determinado momento, ela citava um grande pensador nas seguintes palavras: "Aristóteles dizia ser o "espanto" nossa condição de contemplação sobre nossa própria condição de existência em possibilidades.”

Parei após ler o excerto. A reflexão bateu com o momento que vivo atualmente, que é de contemplação daquilo que é ínfimo, desprezado, de "absurdar-me" perante o absurdo da complexidade das mais simples coisas, de viver, ou tentar viver, a essência de toda a poesia de Manoel de Barros, os “nadinhas” que são os “tudos” mais totais. E como fiquei melhor depois! Acredito que nada acontece por acaso nesse mundo, e que raras são as coisas que não podemos explicar. Uma delas é o Amor; outra, a própria Morte. Acontece que eu tinha acabado de comprar minha passagem de ida para Fantasia, aquela do Michael Ende - quem já leu "A História Sem Fim? -, onde eu mesmo me dirigia, sempre para o além... para o além de mim-homem. Quatro e dez da manhã quando olhei o relógio. Terminal Rodoviário de Salvador. Tinha abortado a viagem à Fantasia. "Novos velhos ares", pensei com meus botões...

Um comentário:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"In Sync
by *Hengki24"
Deviantart