quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Pantaleões sob retrato


Por Germano Xavier


Aparentemente, e tão displicentemente,
morre o personagem simulado e morro eu.
Sem a rotina, desatinado, um corpo
de esforço fabrica um poema
não aplaudido.

A metade, o retrato partido ao meio,
o tema de um abismo,
uma música em bagatela mínima,
um império de células de produção
arregimentando sequências mortas
quando um mar de adiantos é a tenra verdade
dentro do grande público que é o peito.

Porque minha palavra existe
ao menos em mim e corro o risco
da chateação múltipla, o milagre-mor.
Porque se não fosse assim,
ou com pouca existência a pedra parada,
ou sem um tanto de desastre pessoal,
não romperia em ascese perfeita
a monotonia do meu bem e do meu mal.

Há de insultar minha parte mais nobre
em silêncio - a que justamente nada diz
ou pode. Há de ser lesada a água excessiva
que combato com penas e delícias,
porque tenho e não tenho o que penso:

um deserto sempre mostrado de outro jeito.

Todo corpo que construo nos sobretudos do dia
é um nunca visto feio e bonito, sorvido nos esqueços
que têm meus afundos e mercês.

3 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Blue memories
by *duchesse-2-Guermante"
Deviantart

Izabel Lisboa disse...

Polissemia bendita, que confere a seu texto mil faces...além da sua (face), aquela que justamente nada diz ou nada pode...

Roberta Pereira disse...

amei o texto,gostei da coerência.