domingo, 28 de abril de 2013

Sebes, sebos, sedes


Por Germano Xavier

Em minhas andagens por aqui ou por acolá, não raro me esbarro com o frontispício de um sebo. Por mais que eu me afaste – se é que posso usar desse verbo – do mundo literário, ou das letras em geral, há sempre um ou mais caminhos que me levam até os livros. Hoje, subi a ladeira da rua onde estou a morar, e poucos passos depois de novamente aplainada a superfície eis que estou dentro de um sebo. Lugar bom e que me faz um bem danado é o tal do sebo! Grande ou pequeno, não importa, a mágica se faz em mim por completo. E eu me perco – Clarice Lispector já dizia que se perder é também um caminho, você duvida disso? – como um elefante velho que destoa da manada que passa ao lado, ou em cima, que passa a passos largos enquanto eu fico. Porque descubro descobertas de dentro ou de fora, na direita ou na esquerda, do avesso ou certinho, me sei no envolvimento do deslocamento encantatório de que somente os livros são capazes de operar num ser humano sensível a palavra. Uma vez lá dentro, conheci a moça que toma conta do sebo no turno da tarde – Juscilene, se não me falhe a memória. Entre uma ou outra buquinagem, dissera-me que era formada em Letras e que a cultura do sebo na cidade de São Salvador ainda está engatinhando. Deu-me alguma dicas de bons sebos na Rua Chile e me apontou mais alguns outros destinos livrescos na capital baiana. Depois ela foi terminar de varrer o estabelecimento e eu namorando um exemplar de Ana Karênina, que só não levei para casa pela bagatela de quatro reais porque estava com a capa por demais deteriorada. Desviei meu olhar para as prateleiras da esquerda e encontrei Retrato do artista quando jovem, de Joyce, e Doze contos peregrinos, de Gabo. Os dois em perfeito estado: oito reais. Livros bons, baratos, com facilidade de compra e negociação, livros com cheiro de história, com gosto de leitura, com sabor de conhecimento podem ser encontrados no sebo mais próximo. A gente precisa baixar a bola dessas grandes redes de livraria, que uniformizam preços e serviços, que monopolizam o acesso ao livro, e começar a olhar com outros olhos o trabalho realizado pelos proprietários de sebo. Dos livros que já adquiri durante minha vida de leitor, posso rapidamente calcular que 80% das obras que possuo foram adquiridas através de sebos. Vamos fazer girar os livros e parar um pouco com essa produção massificada de volumes, cujo principal objetivo é sem dúvida o comercial. Conheça um sebo, percorra suas estantes. Talvez esteja ali, recoberto por uma camada fina de poeira, o livro ou o autor que mudará profundamente sua forma de enxergar as coisas, as pessoas e o mundo. Vida longa aos sebos!

Um comentário:

Caroline Godtbil disse...

Que assim seja! Vida longa e prosperidade a eles! Já não basta essas trilogias de gosto duvidoso em tons de cinza e personagens que só serão imortais pelo poder meteórico que a mídia lhes aufere ainda temos que lidar com a arrogância dessas grandes redes que transformam o livro em artigo de luxo.
Beijos.