segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O jornalista do interior do Brasil


 Por Germano Xavier

Quando pensamos em jornalismo, melhor dizendo, nas atividades jornalísticas essenciais, logo nos vem a idéia de que este é um tipo de trabalho sediado numa grande metrópole, ou numa cidade já bem desenvolvida, num lugar (a redação) repleto de jornalistas apressados andando de um lado para outro, com os seus cigarros nublando de uma fumaça densa o ambiente, no atropelo quase que inconsciente das horas e das notícias. Santa ingenuidade! É evidente que é muito difícil não pensar nisso. Pensamos, por vezes, até na séria possibilidade de que o desempenhar do jornalismo é algo impossível de ser concretizado longe desses obsoletos padrões estereotipados. Todavia, essa visualização/modelagem vem sendo desconstruída e uma nova percepção do jornalista está sendo modelada com o advento lento do passar do tempo. A verdade é que a demanda pelo trabalho do jornalista vem crescendo gradativamente, ao passo que o mundo se conecta globalmente e a informação vem se tornando aparato fundamental na vida de todos os indivíduos. Empresas renomadas e/ou em fase de crescimento, com uma visão diferenciada da maioria, estão acessando cada vez mais as informações adquiridas pelos profissionais do jornalismo, assim como os setores públicos, melhorando suas respectivas imagens e entrando também em quesitos que tocam a esfera da responsabilidade social para com os anseios mútuos de uma cidadania mais plena. Apesar de ainda muitos entraves de bases arcaicas ainda acometerem o pensamento que se tem acerca de um setor de comunicação, de informação, vê-se, cada dia mais, o interesse elevado de diversos conglomerados comerciais e também de algumas prefeituras em manter em funcionamento um complexo de imprensa bem arregimentado em seus arredores, para efeito de divulgação de propósitos os mais variados possíveis na internet, no rádio, na televisão e nos demais meios de divulgação de massa. É certo que ainda há um efeito de muita estranheza em se adotar um sistema de comunicação em localidades tão pequenas e afastadas dos grandes centros urbanos, assim como é certo também que estamos muito longe de termos – nós jornalistas interioranos – as condições mais dignas para o exercício sublime do nosso trabalho, mas é preciso estar ciente – sempre - de que é preciso seguir adiante, acreditando no progresso das mentes e das gentes deste país e de nossas queridas terrinhas, e contribuir de forma duradoura e verdadeira para a construção de uma humanidade mais digna e respeitável. Oxalá que tudo se encaminhe para o bem!

domingo, 29 de janeiro de 2012

O Sono


 Por Germano Xavier

O Sono é um livreto publicado pela Editora Fonte Viva, de Paulo Afonso-BA, que tem por tema central a morte. Nele, sete pessoas, com diferentes ocupações, traçam um perfil da morte e suas idiossincrasias, suas nuances mais questionáveis, suas consequências diante da condição humana de se estar ou aparentar estar vivo, quando não de suas próprias futuras mortes. O livro vem recheado de citações de autores consagrados da literatura e do pensamento mundial, assim como algumas notícias de alguns jornais cujo teor é também a morte, o que provoca no leitor uma variante de possibilidades de visão acerca do assunto muito mais ampliada. De rápida degustação, o projeto tem a participação do fotógrafo baiano Marcos Cesário e da minha colega de jornalismo unebiana, Emiliana Carvalho, que gentilmente me cedeu um exemplar, além de mais cinco seres "vivos". Quem tiver oportunidade, vale a pena entrar em contato com este livrinho sobre “a indesejada das horas”.

sábado, 28 de janeiro de 2012

"De tu ojo soy la pupila"


Por Germano Xavier

Para a menina mais linda do meu mundo.

menina, você não sabe
o quanto me abres uma janela viva
para o coração do céu
a vista destes teus olhares...

(queres saber?)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Vôo de um canto


 Por Germano Xavier

saiu e cantou
o pássaro-de-nós, pássaro de voz.
com suas pás de construção,
deixou o ninho sem medo,
e preso, na garganta – tubo-goela de conexão –
só a liberdade do vôo nas asas sem grades
do voar.

(o passarinho que desceu da manjedoura abriu um cabedal de vozes na floresta.
a voz do passarinho salvou os moradores da floresta.
fez-se cantoria, fez-se cantoria!)

passa ninho passa ri o rio
ri a árvore o animal passa e ri
passa arando o passarinho saído do ninho
passa – pedimos -, passa!


10º poema-imagem/imagem-poema da série Preto-e-Branco:Poesia.
Fotografia de Daniela Gama.

Justo, justíssimo



Por Germano Xavier

"Mas por que não criar o projeto, o destino?", balbuciou o homem esquelético que vestia um paletó de brim já em frangalhos. Eu tinha acabado de pegar o ônibus para a estação da Lapa. De Brotas até lá, por todo o percurso dediquei-me a ouvir o homem. "Passei várias noites sem dormir direito, levantando angustiado e aos sustos. A vida é tão curta, sabe. Tão traiçoeira! O rapaz tão novo, estudado. Bem de vida já, casado. Era engenheiro elétrico da Continental e na honestidade devia ganhar 7 mangos todo mês. Tinha uma filha bonita, saudável, uma mulher zelosa. Sabe, eu fico me perguntando o porquê?"

"É mesmo assim. Quando Deus quer, nada atrapalha. Não adianta. Deus é sempre justo, justíssimo!", disse a senhora que dividia o banco com ele. Quando eu ouvi aquilo, fiquei encabulado. Qual a palavra que poderia definir Deus? Seria "Justiça"? Ou "Amor"? Qual? Quem poderia me responder isso? Alguém? Mas, há mesmo Deus? Quem é? Fiquei todo torto na cadeira, sem jeito, como sempre fico quando algo me perturba. "Mas que justiça injusta essa, não?", pensei comigo. Levar assim, tão jovem moço, para o abisso do desconhecido. Deixar órfã uma linda menina de 11 anos. Enviuvar uma dama no auge da idade, idade balzaquiana.

"Que justiça é essa, meu Deus?", alinhavei. E desde quando acredito tanto em Deus pra render culto assim, pedir explicações em momento tão embaraçoso? E por que estou escrevendo a palavra "Deus" assim, com letra maiúscula? Algum temor perante justiça tão cruel? "O que está acontecendo comigo? O que aconteceu comigo?", vociferei com meus botões, arrefecidamente. Senti o ar abafado. Sinais de fumaça, muita. Estávamos na Estação da Lapa. Umidade fumacenta entrando pelos pulmões e poros. Comecei a suar, andando. Sou um sujeito imprestável suado. Não consigo me concentrar. E eu tentando matutar mais sobre o ocorrido dentro do ônibus. "Quem me censurava? Por que não conseguia continuar a reflexão sobre aquela conversa?", gritei internamente, inquirindo-me. As pessoas me atropelavam, esbarravam em mim. Depois lembrei da frase proferida pela senhora de saia e batom escarlate: "É mesmo assim. Quando Deus quer, nada atrapalha. Não adianta. Deus é sempre justo, justíssimo!"
...

Continuei caminhando. Na lanchonete mais próxima, pedi uma água mineral bem gelada. Muito desgaste para um dia que apenas começava.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Lumiar


medito sobre a espuma lunar
(uma imagem)
e desaprendo a ver a matéria.
- o que podemos enxergar, afinal?

há um sol cansado na lua que acorda,
persiste um revoar-passarinho sem asas – a lua,
não pode ela ser um mar circular preso num quadro?
onde dorme a lua do dia?
que mancha aborda a esfera sem imponência
de um sol aberto numa claridade óbvia?

a alma das coisas é escura, não dá para ver
(por mais que tentemos).
não dá para ver o fim dela, da alma,
do escuro da alma
das coisas. não dá.


Nono poema-imagem/imagem-poema da série Preto-e-Branco:Poesia.
Fotografia de Daniela Gama.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

À moda de alguns, a vida



Por Germano Xavier

És tão digna de respeito,
que sugiro maior apreço.
Teus traços já denoto,
tão faceira quanto estreita.
Delicada, angelical, sublime,
vai-se no vendaval...
colorida, frágil, de ar enchida,
vai-se embora
sem dizer, perdida.
Mas talvez retorne...
mas não é o homem quem morre
sutil aos olhos teus?,
bolha de sabão que, poucamente,
no tempo residiu...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O escritor das serranias diamantinas


 Por Germano Xavier

A existência deste texto não parte do agora, i.e., do tempo do presente instante, mas de alguns muitos anos atrás, mais precisamente a partir do dia em que mantive contato - em primeira leva - com os textos dele: o Sr. Ângelo de Mattos Pereira, uma das mentes mais abençoadas desta pacata cidade chapadense e baiana de nome Iraquara. A bem da verdade é que sempre tive vontade de entrevistá-lo, iniciar uma conversa com este homem de letras vigorosas, aprender apreendendo o seu mundo - que também é o meu mundo, o nosso, patrimônio de todo iraquarense e/ou habitante da inigualável Chapada Diamantina-, mundo regado de recordações, poemas de expressividade nada parca, contos cativantes no encalço de assuntos pertinentes à nós, histórias de se prender atenções, estórias de se atravessar gerações, realidades puras, ficções mais puras ainda... sempre, sempre foi a minha intenção senti-lo assim de mais perto, alma tão gigantesca, mas se antes não tive a força necessária para produzir fatos a partir deste meu desejo, foi por me saber ainda despreparado para tal. Um encontro assim não poderia ser elaborado à revelia, sem os devidos preparativos. Era preciso um cuidado todo especial, ler mais coisas sobre ele, dele, escutar mais, suspeitar mais, amadurecer mais... só assim o caminho do nosso primeiro encontro dar-se-ia em mais validade para os propósitos futuros.

Pois sim, foi na manhã de uma sexta-feira, dia 20 de janeiro de 2012. De casa saí em direção à residência do escritor - as horas que vingariam prometiam um teor de vida muito grande. Minha imaginação especulava muito sobre todas as coisas e seus respectivos equadores. Algo de muito maravilhoso eu estava para presenciar, enfim. Porta da casa do escritor: tudo muito natural. Manhã nem quente nem fria. Céu aberto. Falei com o filho do escritor logo na entrada, mãos trocadas e apertadas, e ele entrou para avisar ao pai que o rapaz jornalista da entrevista tinha acabado de chegar.

Fui no tracejo marcado pelo filho, entrando-me sem receio, o Sr. Ângelo estava retirando algumas sacolas de dentro de seu veículo, dentro da garagem de sua morada. Recebeu-me com um sorriso divertido no rosto e um aperto de mãos alongado. Jeito simples, olhar simples, ser humano. Terminou a tarefa que estava fazendo com um pouco mais de pressa e logo pôs passos nas pernas em direção ao andar superior, convidando-me a segui-lo, por onde se via uma espécie de plaqueta em tinta com o seguinte dizer: Toca do Poeta.

Uma certeza: eu estava no lugar certo, no abrigo das letras, na fábrica de poemas e contos de um dos maiores nomes da literatura (seja de ficção ou não-ficção) regional de nossos dias. Não é todo dia que podemos nos encontrar com um poeta vivo, fato que substancia ainda mais o valor daquelas horas para mim. Subimos, ele meio de lado, pisando com firmeza os degraus, em paciente subida. Fiquei no primeiro degrau, enquanto via o molho de chaves nas mãos do poeta, tremulando. Ele tentou uma, a porta não abriu. Escolheu outra chave, a porta continuava sem querer ser aberta. Até que na terceira tentativa, a porta que dava para o interior da Toca do Poeta descerrou-se e, encantado com o encantamento do aposento – de uma simplicidade comovente -, fui me atirando nos dentros do lugar, ao passo que o Sr. Ângelo organizava alguns objetos que se encontravam sobre a mesa.

Sentamos, compartilhando de uma mesa em madeira escura. Opostos, um de cada lado, num mesmo frenesi baseado em cumplicidade e respeito. Eu, um mero aprendiz das artes e gracejos das palavras, jornalista ainda mais mambembe, ao lado de um homem já de vida plena que hoje está preparando o seu quarto livro, este intitulado de Odisséia dos Coronéis Sertanejos, já quase finalizado. Os outros são, por ordem de publicação, respectivamente: Fragmentos de Saudade (2006), O Império das Serranias (2008) e Realidades Telúricas (2009). O que seria uma entrevista, logo nos primeiros minutos desmanchou-se de formato e deu lugar a uma prosa inesquecível de quase três horas de duração – não tinha fita de gravador que resolvesse.

Questionado sobre a infância, o poeta começou a falar sobre sua árvore genealógica. Família com antepassados de Portugal, avó materna portuguesa. Nascido no dia 19 de junho de 1939, na encosta de um outeiro na Vila de Olhos D’Água do Seco, em Ibitiara-BA, ainda adolescente perdeu a mãe, quando ainda tinha de 11 para 12 anos, vitimada de doença do coração. Filho legítimo de Rosalvo Pereira e Maria de Queiroz Pereira. Contou-me que o pai casou-se novamente após a morte de sua mãe, que gostava também da madrasta, a senhora Leonília de Queiroz Pereira, mas era da mãe Maria que o filho tecia as mais saudosas considerações e reminiscências.

Ele recorda, no que senti um tantinho de emoção na fala e nos olhos, do dia em que viu pela primeira vez o retrato da mãe pendurado numa parede. “Eu nunca tinha visto uma foto da minha mãe. Naquele tempo só se via foto de gente “importante”, ligado à política. Foi uma grande surpresa para mim. Ela estava linda.” Depois que o pai morreu, foi morar em Lençóis-BA, na casa de um irmão. Era o ano de 1958. Assim que atingiu a maioridade civil, veio para Iraquara, onde fez o curso de magistério e trabalhou 35 anos exercendo o cargo de Oficial do Registro Civil das Pessoas Naturais com Funções Notariais. Cursou Letras e Artes na Universidade Estadual de Feira de Santana-Bahia e, depois de aposentado, começou a perceber que sua vida estava muito parada, sem grandes novidades nem atrativos. E foi justamente após ter parado de trabalhar que o Sr. Ângelo de Mattos Pereira sentiu a necessidade de começar a escrever.

O poeta relata que sempre teve tendência para a escrita de textos dos mais variados formatos. “Em Ibitiara, certa vez uma professora chamada Lindaura de Brito, minha primeira professora, me passou um trabalho. Lembro como se fosse hoje. No outro dia entreguei-o pronto, todo feito em versos. Eu nem sabia o que era um verso. Eu me lembro dela dizendo: Isso aqui é uma poesia. Você é poeta, meu filho!” Tudo estava iniciado, como se tudo já estivesse escrito há muito tempo no destino. Sr. Ângelo citou alguns nomes dentro da família que também escreviam, a citar o seu avô materno, exímio poeta e médico, assim como também o grande e polêmico Gregório de Matos Guerra, conhecido também como “Boca do Inferno” e que, segundo o escritor iraquarense, é parente bem chegado dentro da genealogia familiar.

Entre uma e outra nova informação sobre os três livros de sua autoria que estavam sobre a mesa, pediu-me que eu lesse em voz alta o poema “A Terra não nos pertence”, que está na orelha do seu terceiro livro, o Realidades Telúricas. Ao passo que lia, sorria como que dizendo: “Não é verdade? Concorda comigo, Germano?” Um belo exemplar das temáticas mais trabalhadas pela verve do poeta-escritor, poema mesclado em linguagem culta e coloquial, com forte presença metafísico-religiosa. Falou-me de como se deu o processo de feitura e escolha da capa, e do quanto gostou da que trazia a figura de um anjo negro sobre a Igreja de São Francisco, na capital soteropolitana. “Era a capa perfeita”, balbuciou, feliz.

Ao passo que a parola se desenrolava, Seu Ângelo, como é mais conhecido pelos iraquarenses, reforçava a idéia do interesse pela escrita nascido depois do recesso do trabalho no setor da Justiça. “A gente tem tudo na cabeça. A gente sabe disso. Você mesmo sabe do que estou falando. Mas é o que é melhor dentro de tudo que possuímos que a gente deve cultivar. Todo mundo carrega tudo dentro de si, até as doenças estão dentro da gente, mas devemos tentar desenvolver só aquilo que é bom. Foi assim com a minha escrita. Eu sabia que tinha isso dentro de mim. Um dia sentei e comecei, e estou até agora. Não tenho vontade de parar. Hoje escrever é uma das coisas que me dão mais prazer. Vou lendo, vou escrevendo, aplicando alguma coisa de minhas experiências, arrumando outras informações e os textos surgem naturalmente. Eu pensava muito em como eu iria começar a escrever, mas aí as idéias foram surgindo, fui fazendo pesquisas também, e pronto, decidi escrever. Nessa brincadeira, já vou em quase quatro livros, e o quinto já vem aí, que será sobre a genealogia da família Matos.” Sobre o quinto livro, o mestre deu uma palhinha: “O primeiro da família Matos foi José Pereira de Matos, que chegou de Portugal, era um alferes, mais ou menos o que representa um sargento hoje e viveu em Santo Inácio. Quando ele chegou em Santo Inácio, casou-se com uma tapuia...”

"A melhor escola da vida é o mundo, e a melhor escola do mundo é a vida", soprou o mestre iraquarense, num movimento inesperado. Seu Ângelo geralmente escreve na parte da noite, após o jantar, indo até a meia-noite. Falou-me que gosta mais de escrever quando a cidade está bem parada, com pouco ou quase nenhum movimento, "quando até parece que Deus pára para ver a gente lá de cima", retrucou. É assim a sua tática de produtividade textual mais comum. "Eu adoro ser entrevistado, sabia?!", exclamou perguntando, da mesma maneira inesperada. "Muita gente começou a me visitar depois que comecei a publicar meus livros, gente de faculdade, estudantes, etc. Eu gosto por demais disso", revela.

Seu Ângelo chegou em Iraquara no ano de 1958, muito novo, ficou na casa de uma senhora, que servia de hotel, e acabou casando com a filha dela, Helenita Pereira Matos. Disse que veio para Iraquara porque ouviu dizer lá em Lençóis que havia uma vila, nem cidade era ainda, muito boa de morar, mais tranquila, de povo ordeiro e hospitaleiro. “Eu tava procurando um lugar para morar, aí vim para cá. Quando eu cheguei, a política me colocou logo para trabalhar no cartório, ganhando pelas custas, porque não era registrado naquele tempo... depois veio o concurso, e fiquei trabalhando até me aposentar. Naquele tempo só tinha buraco, terra, nada era calçado, quando chovia era um lamaçal, mas o povo era muito bom, aí fui ficando por aqui mesmo.

Teve ele outras oportunidades de morar em localidades várias, porém preferiu ficar em Iraquara. Com trinta e poucos anos foi que entrou para a faculdade de Letras, chegou a lecionar Língua Portuguesa e foi também vice-diretor do Centro Educacional Manoel Teixeira Leite, algo em torno de dois anos, porém depois ficou só no cartório. O escritor foi também quatro vezes vereador, em mandatos consecutivos, e candidato a prefeito, não conseguindo se eleger. “Não vou dizer que perdi, porque eu tiro esse fato como uma lição.” Sobre esta experiência, diz que se envolveu com a política porque a família era muito ligada nisso. “Quase todo mundo do meu sangue era da política. Tudo que fosse bom para as pessoas, eu buscava ajudar. Ajudei a fundar o segundo grau no C.E.M.T.L., eu registrei o segundo grau aqui na cidade.

Entrado em questionamentos mais metafísicos direcionados por minha curiosidade, começou: “Eu sou eu mesmo. Eu sou uma pessoa de família pobre, apesar de ter gente muito famosa dentro da família, a citar o coronel Horácio de Matos, que era primo carnal de minha mãe. Horácio de Matos tinha muito nome, era um cara quase analfabeto, foi Senador Estadual e muitas outras coisas, e continuou mandando na Chapada Diamantina todinha por muito tempo. Foi ele que fez a Chapada Diamantina, foi ele que escreveu a história da Chapada Diamantina. Certa feita eu ouvi um senhor dizer - ele era do começo do século passado -, que a história que se sabe do coronel Horácio não é nem metade da que ele realmente ajudou a fazer.”

Narrou um pouco sobre as antigas rixas entre famílias da região, inclusive com a sua, na localidade onde hoje é o Cochó do Malheiro, perseguições por causa de fazendas e terras, entre tantos outros motivos. “Perseguiram meu pai, perseguiram meu avó. Meu pai contava que um dia estava em sua casa, na fazenda, aí de repente chegava um caminhão cheio de soldados, e que eles corriam pelos fundos da casa, escondiam-se e lá ficavam horas e horas esperando eles irem embora. Um dia minha mãe me contou que todos da casa se esconderam perto dum riacho, e quando voltaram para casa os soldados, de prontidão, perguntaram por meu pai. Minha mãe disse que ele havia viajado, mentindo, como proteção. Um fuzil atrás da porta dava para ser visto. Eles iam para matar mesmo. Iam matar o meu pai. Sobre minha mãe, eles diziam: “Deixa, é mulher”. Se fosse meu pai tinha matado ali mesmo. Minha mãe era muito corajosa, morena, dos cabelos grandes, muito bonita, me lembro dela até hoje”, reitera.

As lembranças de uma Iraquara que não existe mais ainda continuam vivíssimas na mente do poeta, memórias vivas do período de emancipação da cidade de Iraquara, em 05 de julho de 1962. Era um homem muito novo, mas ajudou muito. “Aqui era muito atrasado, não tinha nada, todavia eu tenho saudade daquele tempo...” Foi me contando como tudo aconteceu, os primeiros mandatos, as primeiras confusões e embates, as disputas partidárias e as vaidades de alguns políticos. “Eu montava numa bicicleta e ia até a casa das pessoas tentar contribuir com alguma coisa em minha carreira política, fazer um favor, trazer um benefício, também ia no lombo de animal levar um remédio, um pouco de comida, tudo que eu pudesse fazer, eu fazia... naquele tempo quase que não se via automóvel por estas bandas”, balbuciou, com uma voz um pouco trôpega.

Sobre seus primeiros livros, a começar de Fragmentos de Saudade, diz ter escrito com o propósito de resgatar a cultura de nossa gente, que fez pesquisas sobre a Chapada Velha, sobre as formações rochosas... “Meu primeiro livro é muito apegado à minha mãe, saudade dela, daquele tempo, ela gostava mais de mim do que qualquer outro de seus filhos. A gente tinha tanto amor! Era uma pessoa muito prestativa, de coração enorme. Por exemplo, quando ela sabia que tinha uma pessoa com furúnculo, podia estar onde estivesse, ela preparava um espinho de mandacaru e ia lá furar ele, todo dia, até sarar o ferimento da pessoa.

E seguiu dizendo do seu papel de escritor: “O poeta não estuda, o poeta nasce. É o dom que deus dá.” Citou um pouco da história das polêmicas envolvendo Gregório de Matos e também do movimento Barroco e riu lembrando-se de várias passagens do poeta baiano. Falou da palmatória, instrumento de madeira com um furo no meio que sua mãe mantinha em casa. “Às vezes eu fazia alguma coisa errada, aí ela me batia com a palmatória. Quando doía muito, eu a abraçava chorando e ela chorava junto comigo.”

Ainda sobre a sua formação, recorda: “Se eu pegasse um pedaço de jornal no chão, eu lia todinho, um livro velho, qualquer coisa... Não havia tantos livros como hoje. Um dos autores que mais eu admirava era Erasmo de Carvalho Braga, educador e intelectual brasileiro. Ele escrevia contos, dissertações, ficções, os livros dele eram muito aplicados nas escolas. Naquele tempo a gente lia mesmo, tinha que decorar o significado das palavras do livro, porque a professora ia perguntar a gente no dia seguinte. Era só uma professora para toda a turma. Eram mais de 40 alunos. E eu sempre fui um dos mais adiantados. E quando era trabalho escrito, eu fazia tudo em verso. Eu amava minha professora. Quando ela me via, corria e vinha me abraçar”, lembra, emotivo. Sobre o livro Império das Serranias relata que ele nasceu depois de um convite de um amigo para conhecer a gruta da Torrinha, umas das mais completas em espeleotemas do mundo. Já o intitulado Realidades Telúricas diz ser um compêndio que reúne textos acerca de vários assuntos, do mais trivial ao mais filosófico.

E, como que de chofre, o tempo foi atravessado nas horas, certeza de amizade eterna travada. Era hora de deixar o poeta fazer sua refeição da tarde, porque poetas não são deuses, poetas são homens comuns – o que é muito mais difícil de ser. Fui me despedindo, depois de ser presenteado com dois exemplares autografados pelo autor. O Sr. Ângelo de Mattos Pereira relatando umas lembranças muito antigas, de crianças pobres que de perto via quando ainda era criança, no que destacando também seu lado humanitário aflorado nos dias de agora. Ao passo que ia colocando todos os materiais da entrevista dentro de minha mochila, reparei que atrás de onde eu permaneci por quase todos aqueles minutos estava um quadro com a imagem de Gandhi. “É preciso fazer o bem, meu filho, o bem. O bem em prol do Belo”, finalizou, num até breve sincero e amigo.

Do verbo mudar


Por Germano Xavier

Devíamos mudar de comportamento com a mesma frequência que trocamos a mobília da nossa casa. Uma nova decoração para cada etapa da vida. Papéis de parede e tintas coloridas deviam acompanhar a nossa infância. Aliás, as tintas coloridas deviam ser itens obrigatórios durante toda a nossa existência. São, de fato, muito importantes. Diria, para ser mais franco, fundamentais. Para a mancebia, cores mais instigantes, objetos mais pontiagudos e/ou afiados. Afinal, é um período de sangramentos, de cortes, de feridas e de cicatrizes. Mascarras e sequelas que servirão justamente para nos definir, para nos caracterizar (de caráter). Espelhos cairiam bem, muito bem. Espelhos por toda a casa. No quarto, atrás da porta. Na caixa do banheiro. Outro grande, bem grande mesmo, na sala de visitas. Um de igual proporção no quarto das crianças e um também na garagem. Assim como todos, este breve intervalo de tempo, se mal aproveitado ou mal utilizado, muito nos compromete e nos aturde. Por isso os espelhos. Necessitamos, aqui, estar sempre em contato com a nossa imagem, no desígnio de nos auto-encontrarmos, de realizarmos uma autocorreção diária. Já que andaremos feridentos pelas ruas dessa nossa imatura idade, é sempre bom saber enxergar as nascentes desses horríficos ferimentos. Para isso servem os espelhos.

Ó deuses, santificai os espelhos que podem refletir as almas dos homens!

Quando adultos, uma boa receita seria mesclar um pouco da inocência infante com o tom cinza da responsabilidade e das ações resolutas que sabem resumir bem as formas e perfumes desses vergéis, sem jamais esquecer de pôr uma pitada de amarelo-mostarda nesse prato, pantomina das conquistas pessoais, materiais e espirituais. Seria essa a fase do aprimoramento, da concretização e do reconhecimento. Uma etapa de muita cautela e paciência, de muita experiência. Os móveis, aqui, deverão estar muito bem combinados, em perfeita harmonia e ajuste. Sem folgas, os parafusos apertados no simbolismo da segurança, da racionalidade em detrimento da emoção. Nada de pinturas surrealistas ou abstracionistas na ornamentação. A distorção das coisas, dos fatos, aqui, não será de muita valia.

Agora, um sinal de alerta. Uma advertência para o estado das gavetas. Conservem-nas sempre muito bem fechadas, cerradas até o limite dos seus "umbrais", até que toquem as suas outras peças de contato. Não é proveitoso deixar brechas nesse patamar da vida, elas podem ser extremamente perigosas. Podem significar más influências, dissoluções e , acima de tudo, conflagrações que irão nos dissolver por completo, nos queimar e , na pior das hipóteses, nos tornar inúteis, meras estátuas de carne estragada ou aparelhos fungíveis.

Depois da fugidia aurora temporal, será preciso uma acurácia tamanha na arrumação e na escolha e na preferência das tintas que irão predominar em nossas vidas. Ao cabo dos semblantes marcados, caberá agora o uso de nossas ferramentas de defesa, de nossas armas de retaguarda. É o tempo de sermos insolentes, chegando ao extremo, de derrubarmos muralhas e fortes com os nossos aríetes ou com os nossos gládios, numa batalha mais dura. Um tanto que alquebrados, disporemos de nossa adormecida impudência, no justo intento de nos cobrirmos com os louros e com as glórias oriundas da sabedoria apreendida com o fel das quedas. É momento de contarmos os nossos proventos e não de lamentarmos os nossos infortúnios, os nossos átimos de agouro. É local de desfrute, de deleite e de congraçamento. O perigo aqui é cair no abismo da obscuridade, dos gestos desvalorizados, tornados escórias e refugos. Cabe aqui o olhar vivo, clínico, em busca de diagnosticar a fonte do gozo etéreo. Os pensamentos e ideais devem percorrer os caminhos da eternidade. Debaixo desses trovões, pensar efêmero é retroceder e, como já sabemos, a infância é, a essa altura do campeonato, apenas um retrato na memória.

Devíamos mudar de atitude com a mesma periodicidade que trocamos de roupa. Todavia, tudo tem de ser muito bem estudado e necessário mesmo. Ninguém deve mudar por mudar, assim, sem precisão. Para cada ocasião, um novo espécime de sorriso, um novo modelo de cumprimento, sempre mais afirmativo e veraz. Pela manhã, na companhia do sol, um "bom dia" radioso e claro. No descanso solar, o "boa tarde" amigo e, no silêncio da lua, o "boa noite" sincero. Certamente, agindo assim, seríamos muito mais felizes. O número de pessoas depressivas decresceria. O estresse não faria tantas vítimas.

Na vida, tudo é uma questão de arrumação e de bom senso. Se bem soubéssemos, a partir desse instante selecionaríamos as nossas amizades da mesma maneira que escolhemos as tintas que colorirão os cômodos de nosso lar. Selecionaríamos os gostos, se amar ou não, se querer ou não, se ir ou não, se ser ou não. Da mesma forma, jogaríamos fora as nossas desilusões, os nossos desapertos e desapegos, assim como descartamos algumas peças do vestuário. E viveríamos mais e melhor, sem distorções, sem desatinos. Então, o que você está esperando? Acho que é hora de uma faxina geral...

sábado, 21 de janeiro de 2012

Biblioteca em Iraquara mantém acervo de 6.000 livros


 Por Germano Xavier

Rua Rosalvo Félix, 74, Centro
(75) 3364 2161 Ramal 222

Fundada em 02 de abril de 2005, a Biblioteca Pública Municipal Elias Vieira Gama é um importante patrimônio da cidade de Iraquara-BA, porém ainda pouco explorado pela população. A homenagem de caráter titular foi dada ao ex-vereador Elias Vieira Gama, falecido em 15 de agosto de 2000, pelo fato de ter militado durante seus anos de participação política nos campos da educação e da cultura no município iraquarense. O estabelecimento disponibiliza um espaço de proporções consideráveis e está dividido em três compartimentações maiores, que são: uma biblioteca, um auditório e um arquivo público.

A equipe que faz a Elias Vieira Gama funcionar trabalha em revezamento nos setores infanto-juvenil, no de empréstimos e no de pesquisa em dois turnos, de segunda à sexta, e é formada por Ivoneide Conceição Ramos, Maria Lúcia Marques e Maria Aparecida Almeida, que também são responsáveis pelo auditório, ligado ao interior e exterior da biblioteca por duas vias.

As três funcionárias também respondem pela manutenção e pelo avivamento do Arquivo Público Municipal Genelício Costa Teixeira, que foi recentemente criado no intuito de preservar os dados de vários documentos ligados à esfera do funcionalismo público municipal em Iraquara-BA, para posterior usufruto de seus cidadãos.

O espaço livresco em si inclui duas salas de leitura, divididas em seção Infanto-Juvenil e Pesquisa/Conhecimentos Gerais, além do setor dedicado à Literatura. Passeando pelas prateleiras, é possível encontrar facilmente desde os clássicos de nossa prosa e poesia, como livros de Machados de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Mario Quintana, Jorge Amado, Graciliano Ramos e José de Alencar, até alguns importantes nomes e títulos da literatura universal, a citar James Joyce, William Shakespeare e Virgínia Wolf.

No setor de Pesquisa/Conhecimentos Gerais, o leitor encontra uma gama variada de enciclopédias e livros de cunho histórico, todos bem organizados, que auxiliam o interessado na hora de realizar uma pesquisa ou um mero buscar de alguma informação em caráter específico.

A biblioteca Elias Vieira Gama possui potencial como pólo centralizador de seminários realizados por escolas locais, espaço para reuniões e projetos com temáticas as mais variadas (por exemplo, as atividades da Plataforma Freire e do programa Cidadania Digital) e, num passado recente, funcionou também como um importante centro produtor e difusor teatral da cidade, possuindo também um projeto de participação itinerante, chamado de Busoteca, onde os livros eram levados até a população mais carente por meio de um veículo motorizado. Todavia, “a gente percebe que é justamente a clientela da zona rural a que mais procura os nossos serviços, as pessoas da sede usam menos esta biblioteca”, diz Ivoneide Conceição. “Até hoje dá gosto de ver como o pessoal do povoado da Zabelê e outros vem pegar livros aqui, é bastante gente lendo. A gente fica feliz por isso”, reforça Neide, como é mais conhecida.

O setor Infanto-Juvenil, que ainda dispõe de um pequeno acervo, é, segundo Maria Lúcia, “a parte da instituição mais requisitada, muito visitada por crianças de todas as localidades vizinhas, que chegam aqui incentivadas por projetos escolares pensados e colocados em prática por alguns educadores ou, quando não, por seus próprios familiares, geralmente as mães. Pedro Bandeira, Ruth Rocha e Ana Maria Machado são alguns dos escritores mais lidos nesse setor.” O espaço ainda dispõe de um computador, uma televisão e um aparelho de vídeo-cassete que servem de suporte para a exibição de títulos infantis, documentários e programas neste formato, também pertencentes ao acervo.

O acesso facilitado à internet por empresas do ramo em Iraquara fez com que o número de leitores/dia caísse drasticamente. “Poucos ainda vêm aqui, geralmente são mais os alunos de escola particular em época de prova ou por motivo de tarefa escolar”. Ainda de acordo com Ivoneide Conceição, “a grande parte dos leitores, ou melhor, daquelas pessoas que ainda se deslocam até aqui a fim de pegar um livro emprestado, leva para casa ou um livro de literatura estrangeira policial ou um livro mais voltado para auto-ajuda.” A funcionária reforça que é preciso um esforço conjunto para que a biblioteca e setores ligados à cultura e educação sejam mais percebidos pela sociedade. “Já teve gente que apareceu aqui pensando que era um mercado de livro, querendo comprar um exemplar, perguntando pelo preço”, reitera.

Ivoneide explica que é muito fácil efetuar o cadastro na biblioteca, “basta trazer um documento de identificação. Se ainda não tiver 15 anos completos, lembrar que precisa vir acompanhado de um responsável, apenas isso. Chegando aqui, o leitor preenche uma ficha e está pronta a sua carteirinha de fidelidade. A depender do livro, ele tem de 8 à 15 dias para devolver o exemplar.” A biblioteca também possui uma repartição com assinaturas de importantes revistas e jornais do cenário editorial nacional, como a Cult, Piauí, Caros Amigos, o jornal Le Monde Diplomatique, entre outros.

As funcionárias fazem o registro de todos os livros que entram e saem da biblioteca todos os dias, assim como atualizam os dados de todos os títulos presentes (cerca de seis mil) e, também, mantém a lista de livros que ao longo desses anos foram emprestados e que, por motivos desconhecidos, não foram devolvidos (cerca de cinquenta exemplares). “O setor de literatura infanto-juvenil carece de mais livros, e por esse ou outros motivos, pedimos às pessoas que porventura se esqueceram de devolver algum livro, que se esforcem para trazê-lo de volta, pois outras pessoas podem precisar. É bom informar também que se alguém quiser fazer alguma doação de livro ou qualquer outro material cultural, agradeceremos muito."

Matéria realizada no dia 13/01/2012

CREAS intensificará campanha contra as drogas em 2012


 Por Germano Xavier

CREAS - Rua Artemísia Nogueira s/nº
(75) 3364 2161 Ramal 224
creasiraquara@gmail.com

O CREAS (Centro de Referência Especializado da Assistência Social), por ser relativamente novo na cidade, está passando por um momento de estruturação e só agora começa a colher seus primeiros resultados. O órgão existe desde janeiro de 2011 e possui uma equipe composta por uma psicóloga/coordenadora (Ângela Gusmão), três educadoras sociais (Simone Félix, Valdiléia Neves e Neide Sousa), uma auxiliar administrativa (Leonice Araújo) e uma pessoa encarregada dos serviços gerais (Edivânia Nascimento). O CREAS é um dos subsetores do complexo de Assistência Social do município de Iraquara-BA e seu objetivo maior está na identificação e no gerenciamento de situações de violência, negligência ou abandono familiar.

A filosofia do CREAS é baseada em três prerrogativas: planejar, monitorar e avaliar. Violência sexual, moral e qualquer abuso no tocante aos direitos do indivíduo são os campos onde há maior visualização e atuação do órgão. Segundo a coordenadora do CREAS, Ângela Gusmão, em 2011 o público mais beneficiado com as atividades desempenhadas foi o idoso, porém ela enfatiza que não há restrição com relação às faixas etárias. “A maior contingência de trabalhos envolvendo idosos se dá porque este público geralmente é o provedor da família, e daí necessidades essenciais são deixadas à revelia, tais como medicação e alimentação inadequadas, em prol de outras, de caráter mais urgente ou não", afirma.

A presença de crianças e adolescentes em situações de negligência e violência sexual, mulheres que sofrem violência doméstica e pessoas com necessidades especiais que passam por algum tipo de abandono estão sendo cada vez mais registrados e averiguados em todo o município de Iraquara. As informações podem chegar até o CREAS de forma anônima, sem risco para os envolvidos, todavia percebe-se "o receio ou uma espécie de medo na hora de a população efetuar as denúncias, o que não deveria acontecer de forma alguma, pois estamos aqui para tentar solucionar os possíveis casos”, reitera Ângela.

O processo de atuação acontece da seguinte forma: depois de recebida a denúncia, a equipe do CREAS elabora uma busca ativa para averiguar a veracidade do ocorrido, o que impede qualquer outro tipo de transtorno na continuidade do trabalho. Verificada a real existência do fato, procura-se prontamente o melhor encaminhamento, participando também desse processo uma assessoria jurídica, quando necessário.

Importante salientar, também, que a atividade do CREAS parte do pressuposto de que, quando um indivíduo é fator de denúncia, toda a família do envolvido também recebe acompanhamento, no justo intuito de sanar o mais rapidamente todas as dificuldades. De acordo com o último relatório semestral de 2011, foram realizadas 155 visitas, incluindo também os atendimentos feitos na zona rural, sendo 75 atendimentos individuais na sede, somando o volume de 50 famílias/indivíduos acompanhados em 2011.

Para o início de 2012, o CREAS está planejando a realização da campanha IRAQUARA LIMPA, que pretende atuar na prevenção e no maior acesso à informação sobre a problemática envolvendo o uso de drogas. O desejo, segundo a coordenadora, “é o de promover conferências em escolas e associações comunitárias iraquarenses, trabalhando em parceria com diversos órgãos”. Para isso, será feito uma seleção com estudantes de ensino superior de Iraquara para servirem de pontos de apoio na realizações das tarefas, privilegiando assim a capacitação de um material humano da própria cidade.


Matéria realizada em 11/01/2012.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Mosaico


é o talhe
o detalhe
a réstia que cose o céu
o cipó que escadeia a verve
e nos agiganta a voz que semeia
o lugar
o estar
o sonhar

eu sou um sonhador
e quero ver brotar da terra
a palavra mais orgânica
dentre todas



Oitavo poema-imagem/imagem-poema da série Preto-e-Branco: Poesia.
Fotografia de Daniela Gama.

Quando a morte passa e balança os roseirais coloridos



Por Germano Xavier

Não consigo chorar. Mas eu devia. Hoje, sob o sol pernambucano, fez-se surgir a Morte, sempre apressada para os de bom coração, e para a dona de uma das mais belas histórias de vida que já conheci em toda a minha vida. Estelita vai continuar sendo o nome de uma mulher de grande bravura. Os são-bentenses de todas as gerações, mesmo essa juventude sem senso de irmandade, sem sentimentos e artificial, deveriam render a ela suas merecidas homenagens. Talvez o meu choro não significasse nada diante das inesquecíveis lembranças que trago ao lado dela. Quando penso em minha infância, uma das primeiras imagens que me vêm à cabeça é a da minha tia preparando bolos à mão. Era um ritual bonito de se ver. Ela encostava uma pequena bacia plástica ao corpo, na altura do umbigo, e ficava horas misturando a massa com uma colher de madeira. Eram bolos irresistíveis. Ainda mais quando vinham acompanhados de um bom naco de "raspa", um tipo de queijo tradicional naquelas bandas nordestinas. Não deixou filhos, só a certeza de que a Vida é uma criança ou um animalzinho de estimação, que por isso deve ser muito bem criada ou domesticada, para não dizer vivida. Não deixou filhos, mas deixou saudades. Uma coleção completa delas, passando pelas saudades eternas (que nem os ácidos da vida corroerão) até as saudades dos gestos e fatos mais triviais (nem por isso menos inolvidáveis). Estelita, que era e continuará sendo irmã do meu pai, trazia em sua totalidade humana uma bondade demasiado farta. Minha tia sabia viver! Mesmo moribunda, consequência de um diabetes que lhe tirou boa parte da visão, Estelita regava todos os dias as roseiras do seu mundo. Sabia das fontes mais próximas e das águas mais cristalinas e puras, mesmo em terras onde a liquidez das coisas é deveras escassa. Saía de casa quando o sol ainda estava se mostrando infante, numa disciplina e pontualidade suíça, e caminhava a alma do rio Una como se preparasse para uma batalha que sempre estava próxima a acontecer: a batalha por uma vida doada à felicidade dos outros. Certamente o mundo perde uma de suas mais belas atrizes principais, pois ela não se aceitaria no rol das figurantes. Estelita era muito mais que uma personagem, era o próprio elenco, um coletivo de gestos de solidariedade e de amor que faziam-na dona de um grande exército de admiradores de sua índole, de seu caráter e de toda a sua dedicação. Quando a morte passa e balança os roseirais coloridos, só haveremos de perceber a presença do vento, que se esconde por trás do farfalhar das folhas verdes. Mas a Morte se viu retraída diante da fortaleza de espírito que Estelita possuía. A Morte passou e só conseguiu levar a matéria, a carne, a parte que apodrece com a ação do tempo. A verdade de suas palavras, o afeto de seus carinhos, o abraço quente e acolhedor de seus braços, os registros de luta de seus olhos, a transparência de seu gestual sensível e piedoso, assim como a garra fibrosa de sua sertanidade permanece, tudo isto permanecerá vivo e atuante como um exemplo para os que a rodearam... Segue tua viagem, assinalando com suas mãos firmes as rotas mais dignas de serem atravessadas. Com sua missão cumprida, tia Estelita partiu para as nuvens mais alvas do céu, onde somente as almas imortais conseguem chegar.

Este texto foi escrito (In memoriam) em 15 de dezembro de 2005, como preito à morte de Tia Estelita. Porém, boa parte das palavras nele contidas servem também como uma homenagem póstuma à Tia Preta, falecida no dia de ontem (13 de fevereiro de 2008), na cidade do Recife. Que descansem em paz...

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Segue o seco

Especialmente para Elaine Martins


seca o seco
secundário não é
do seco se vive até a morte viver
segue o seco
a seca dor do ser
dobra a curva do caminho
(vai ver, vai ver...)
que lá nasceu o verde molhado da água
(vai ver, vai ver...)
mas antes – por favor, não esqueça -
siga o seco

Sétimo poema-imagem/imagem-poema da série Preto-e-Branco: Poesia.
Fotografia de Daniela Gama.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Um grito do silêncio


para Benevaldo Domingos de Oliveira

ordenha o Tempo, homem,
da lavra sem palavra com
o mundo e o vão...
vai a certeza do sentido
mudo na sombra
gritada num clarão,
amarra a marra da criatura
encalçada em teu cerco de viver
o mais escrito dos poemas,
a mais presente das ausências,
o mais calado dos instantes
irresponsavelmente gitanos:

o amor de ser tão

Sexto poema-imagem/imagem-poema da série Preto-e-Branco: Poesia.
Fotografia de Daniela Gama.

Juazeiro: Terra do Sol



Por Germano Xavier

O papel mais importante do cronista talvez não seja o de elaborar um retrato de um determinado tempo, de um momento na história, de um espaço no universo dos fatos, numa antevisão de que tudo isso pode ser o resumo de toda uma ópera litero-jornalística baseada apenas na ação contemplativa, derivando-se, posteriormente, para a reflexão. Ainda sou daqueles que confia mais na potência dos olhos, do saber ver, do saber manipular o ínfimo na direção do gigantescamente sublime. Ao contar o presente panorama juazeirense através do seu livro-reportagem, Josemary Nunes consegue demonstrar que o leve e breve comentário acerca do acontecimento cotidiano pode e deve ser permeado de elementos narrativos e ferramentas outras que possibilitem a ancoragem do sentido textual no melhor cais da palavra. Um dos acentuados pormenores da obra está logo diante de nossa face: a comicidade. Não o efeito do riso e da graça gratuita, mas a sábia caricatura do que afronta a ordem sisuda do texto, o gesticular de imagens e sons que a palavra abarca quando é bem tratada. Daí um mundo inteiro de significações mais verossímeis e relevantes atingir os mais recônditos lugares no homem habitante do real. Juazeiro da Bahia surge em suas diversas facetas, doces e cruéis, ingênuas e obstinadas, despida e ficcionalizada. Com toda a licença possível dada à escritora, nuances míticas e simplórias dividem espaço com o jogo do que é mais trivial e carismático na cidade. Eis um trabalho que tenderá a fabricar novos caminhos, novas esferas de visão, renovadas atmosferas interioranas, surpreendendo-nos com toda a beleza e toda a feiúra de um lugar que, antes de qualquer outra consideração, ensina-nos a suportar o duro sol dos puros castigos no simples movimento do piscar de olhos, numa imorredoura rotina mista de dor e prazer. A cidade, sem sombra de dúvidas, vive e revive nas crônicas de Juazeiro: Terra do Sol.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Iraquara News


A cidade de Iraquara-BA agora possui um centro de informações na internet.
Para conhecer, acesse:


Criado em 10 de janeiro de 2012, o IRAQUARA NEWS é o blog oficial da Prefeitura Municipal de Iraquara-BA, situada na região da Chapada Diamantina - Brasil. A proposta aqui desenvolvida é a de promover a divulgação de noticiário referente aos acontecimentos e eventos mais significativos da cidade, fazendo com que o cidadão iraquarense esteja sempre informado e conectado ao cotidiano de toda a cidade e sua gente.

Quaisquer sugestões de pauta, dúvidas, críticas ou comentários, por favor enviar e-mail para: iraquaranews@gmail.com ou iraquaranews@hotmail.com

Telefones/Contatos:
(75) 3364 2161 Ramal 209
(75) 9811 2404

Iraquara News inaugura página oficial no Facebook

 Por Germano Xavier

O Blog Iraquara News inaugura hoje sua página oficial na mais importante rede social da internet: o Facebook. Com isso, estabelece-se mais uma relevante ponte de comunicação entre a cidade de Iraquara-BA, sua população e o mundo. A intenção é dar mais visibilidade ao cotidiano de nosso povo e de nossa riquíssima cultura, que sofre com as distorções provocadas pelas informações repassadas por pessoas de outras cidades, principalmente no tocante ao processo informativo ligado ao turismo em cidades que polarizam a rota das Lavras Diamantinas. Contamos com a participação de cada um para mudar um pouco este paradigma e ver nascer uma Iraquara (Cidade das Grutas) cada vez mais viva no cenário baiano, nacional e mundial.

Para acessar, clique no link abaixo:

A espera




 Por Germano Xavier

de tanto esperar se atreve,
o homem - o atrever-se na espera -
tomba a redobrar-se na esfera
do tempo, que se faz de breve.

vive, vivo, a vida é fria amplitude
quando se quer em jás a eternidade
e desejar-te, assim, seren'ansiedade...
um vil e mudo estandarte d'atitude.

e eis que se troto minh'andança
na simples espera d'encontrar-te,
minha, fina flor d'esperança

a germinar... oh, campos de marte!
long'estás, fugaz suspiro. ru'desencontro,
o de querer ter-te a vir d'encontro.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Expediente de assombros


Por Germano Xavier

É incrível como alguns escritores do passado – nem tão tardio assim - desenvolveram amplamente a capacidade de nos surpreender no último parágrafo de seus textos, ou até mesmo na derradeira frase. Robert Barr é um exemplo claro de um tipo de escritor que domina todos os meandros do suspense no interior estético de um texto literário. O escritor anglo-canadense, nascido em 1850, do mesmo modo como faziam Edgar Allan Poe e Sir Arthur Conan Doyle, entre outros inumeráveis nomes, tecia uma teia pegajosa de sucessivos eventos no intuito de prender a atenção do leitor, de não o deixar que respire, para no final impor uma reviravolta tamanha que, em certos casos, poderia chegar até a dimensão do susto propriamente dito. A diferença maior está nas características temáticas trabalhadas pelos autores citados. Enquanto a maioria discursava sobre acontecimentos fantásticos e surreais, Barr se utilizava de fatos por demais próximos ao contexto comum de todos os seres sociais humanos. No conto “Um divórcio nos Alpes”, Barr narra a tentativa frustrada do personagem John Bodman de se livrar de sua esposa, com a qual mantém uma relação de ódio avassalador. Levado por seus instintos mais primitivos e obscuros, Bodman inventa uma viagem às montanhas suíças já no desígnio de exercer sua crueldade. A mulher dele aceita lhe fazer companhia e os dois viajam. O lugar é velho conhecido de Bodman, “lugar perfeito”, segundo ele, para a prática de um assassinato. A estratégia seria a de fazer com que sua esposa o seguisse até o Mirante Suspenso, nome do lugar onde tudo se daria, e lá jogá-la ribanceira abaixo. Durante a caminhada até o possível local do crime, os dois não se falam, porém travam uma verdadeira guerra inconsciente em suas mentes, como se pudessem decifrar os pensamentos um do outro. Lá chegando, Bodman, que estava esperando o melhor momento para empurrá-la de uma só vez, vê-se aterrorizado pela atitude de sua esposa. Ela rasga sua própria roupa e, de súbito, atira-se para a morte, deixando atônito o homem que planejava sua morte. Um turbilhão de idéias perturbadoras atingem a mente de Bodman, que se estupefaz de chofre. É como se Bodman tivesse sido atingido por uma espécie de morte também, e talvez a mais fina de todas: da consciência. Vivo, ele estava, a partir daquele momento, em morte contínua. Robert Barr, com sua pena maravilhosamente intrigante, demonstrou mais uma vez a importância de um clímax ou ponto de desfecho bem elaborado, aspecto em declínio quando tomamos por análise nossa atual produção literária. Talvez este seja um ponto decisivo para a manutenção do atemporal sucesso que vários clássicos da literatura mundial obtiveram por séculos adentro. Ou será mesmo verdade que cada época tem a literatura que merece? Eu, sinceramente, duvido.

Seremos só(i)s?


Por Cláudia Lemos

quero teu corpo suado
sobre esse precipício
prá cair em teus braços
e atender meu suplício
quero os olhos amassados
bocas úmidas de queixas
unhas tatuadas nas costas
força em minhas madeixas
tua virilidade flechada
no arco do meu desejo
minha alma vitimada
sugada pelo teu beijo
o caminho do teu corpo
percorrido de carícias
tua vontade ardendo
em palavras e malícias
saudade transpirando
um momento febril
entrelaços corajosos
tua presença viril
tua e minha existência
eu inteira em você
uma única fluência
um só amanhecer

domingo, 8 de janeiro de 2012

O desalado


Por Germano Xavier

para Lano Xavier, in memoriam

no fim da vida
você viu o mundo de baixo para cima,
e foi o fim da sina...

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

A função da propaganda e a evolução histórica da liberdade de imprensa nos Mass Media brasileiros


 Por Germano Xavier

Quando o governo brasileiro monta na Praia Vermelha, na cidade do Rio de Janeiro, uma estação de rádio que transmitia programas literários, musicais e informativos em condições precárias, ainda não se imaginava o poder que a propaganda iria exercer nos diversos meios de comunicação de massa existentes no país (e nos que ainda viriam a surgir mais precisamente na segunda metade do século XX), principalmente no meio televisivo e no radiofônico. Historicamente, foi com Waldo de Abreu que os primeiros anúncios de rádio vieram à tona, no ano de 1932. Waldo, no “Esplêndido Programa”, da Rádio Clube do Brasil do Rio de Janeiro, juntamente com outros locutores, usou o rádio como instrumento para conseguir a adesão popular à revolução constitucionalista de 1932. Antes disso, não há registro de material de publicidade difundido por esta mídia do ramo comunicativo.

Deveras, é a partir desse momento que, no rádio, dá-se a implantação de uma nova política que intermedeia as várias linhas limítrofes do arcabouço da comunicação, assim começou-se a gerar uma modificação intensa na dinâmica das relações interconectivas envolvendo produtor, produto e público-alvo/consumidor de informação. Com a televisão não foi muito diferente. A influência maciça e massiva exercida pela publicidade no que diz respeito à linha editorial pôde ser percebida de maneira gradativa e constante, chegando hoje a termos a clara evidência de que é quase impossível conceber a idéia da existência de uma imprensa sem o apoio externo dos patrocinadores, posto ser até utópico alicerçar um projeto desse porte sem a ligação das diferentes partes (será que estou mesmo certo disso?).

A imprensa hoje, esteja ela em quaisquer uma de suas modalidades, é extremamente comercial, e quando não declaradamente se coloca como sendo deste tipo, em seus meandros o é. A própria notícia (material “literário”), às vezes, é tida como uma mercadoria. Vende-se a idéia, o pensamento, a conveniência, a troca de favores, modulando assim, muitas vezes, a qualidade e o objetivo do conteúdo que é mostrado, transmitido, revelado. O próprio estado utiliza-se desse artifício - e bem - para passar a idéia “rebocada” das “coisas” que por direito ou justiça seriam do interesse da sociedade.

E por falar em poder público, o Estado é, hoje, um dos setores que mais investem (se não for o maior investidor...) no poder da comunicação, despejando anualmente dezenas de milhões nos cofres já abarrotados das grandes, médias e pequenas empresas do ramo comunicacional. Trata-se, portanto, de uma espécie de estratagema para defender a ideologia do governo, seguindo os seus interesses, os interesses do modo de produção vigente e dos setores mais influentes da sociedade. Neste entrementes, algumas perguntas que não calam seguem tirando o sono de muita gente, e uma delas é a que faz referência a possível existência de um jornalismo sem a mácula da propaganda essencialmente ligada às leis do mercado e do lucro.

A relação existente entre os meios de comunicação de massa, poder econômico e Estado é bastante estreita, e também muito bem fomentada. Pode-se respaldar a presença de uma dependência mútua entre os diversos segmentos, a partir de pequenos indícios de idoneidade em tal relação, o que é de deixar em suspensão muitas dúvidas e preocupações. Há um aproveitamento de ambas as partes para o desenvolvimento generalizado das idéias que, porventura, almejem defender. A manipulação de interesses é marca também expressiva dessa ligação e consequência imediata de um modelo padronizado que acaba agregando valores “desonestos” ao que condiz com a área educacional e de caráter cognitivo do cidadão. As mínimas partes que lhes cabem no todo como sendo “responsabilidade social da empresa” geralmente não conseguem atingir o que poderiam atingir e acabam se transformando em mais uma propaganda falaciosa regada a muita má intencionalidade. Servem-se, assim, a um sistema segregador que, por notórias vezes, faz da imprensa e da comunicação mais um instrumento de cunho oficial, deliberando aquilo que é do interesse do Estado.

É preciso se preocupar com todos estes aspectos, pois, de uma ou outra maneira, falar em comunicação é também falar de educação. Informar passa pela instrução, e isso já resume tudo. Subitamente presenciamos a incorporação, na totalidade dos sistemas comunicacional e educacional, de artigos tecnológicos em suas bases estruturais. A informatização da comunicação, assim como da educação, é hoje fator de destaque para o progresso de qualquer nação – não há dúvidas. Tudo muito útil, porém tudo muito mal aproveitado até agora. A questão aqui seria descobrir o porquê que todo este aparato não vem sendo utilizado para o melhoramento da qualidade na relação mass media X sociedade. Ou todos estes incentivos não passam de propagandas baratas?

Os pilares da comunicação e da educação, antes obsoletos, contam hoje com os mais avançados recursos para a formação e informação do cidadão. Equipamentos antes considerados muito modernos e inviáveis estão se tornando obrigatórios nas salas de aula e nas redações, o que prova a interação natural comunicação-educação. Novos paradigmas de aprendizagem estão sendo elaborados e implantados nestes dois ramos, melhorando assim, tanto a vida do aluno, como a do professor e a do comunicador-comunicólogo. O que se enxerga, todavia, é o mais profundo descaso como o porvir da maioria da população. Materiais mal conservados, sem manutenção e até esquecidos formam o retrato mais puro de todo esse desleixo. Fato que desanima, pois talvez com esse novo “apoio” os índices de analfabetismo não fossem tão alarmantes em diversos países do terceiro mundo, e dos ainda em desenvolvimento. É de admirar que setores governamentais, por vezes, aleguem falta de verbas para serem direcionadas a tais investimentos. Uma maior cobrança faz-se passível de acontecer, pois assim as portas tenderão a abrir na direção de uma educação digna e de qualidade.

Puxando um pouco mais pela história da comunicação brasileira, e ainda mais para aquém do nosso tempo, percebemos que a primeira década do século XIX é marcada pela vinda da Família Real Portuguesa ao Brasil, mais precisamente no ano de 1808, devido à ameaça de invasão por parte da França de Napoleão Bonaparte. Antes de 1808, era quase que inexistente e inviável qualquer manifestação de cunho jornalístico e propagandístico e/ou quaisquer impressos assemelhados. A Carta Régia, de 1747, impedia o funcionamento das poucas tipografias que existiam e, também, punia os responsáveis pelas publicações. Com muito esforço e falta de planejamento foi possível a criação de uma imprensa no Brasil (Imprensa Régia ou Imprensa Real) a partir da chegada de toda uma maquinaria tipográfica que estava em Portugal.

Havia, deveras, um jogo de interesses muito forte com tal advento: defender os posicionamentos da realeza, ou seja, fomentar uma imprensa oficial. Só que, antes da Imprensa Régia começar a produzir seus primeiros trabalhos, onde se destaca a “Gazeta do Rio de Janeiro”, ocorreu o aparecimento da publicação “Correio Brasiliense”, que era comandado por Hipólito da Costa. Hipólito, hoje considerado o patrono da imprensa nacional, coordenava, redigia e imprimia o “Correio Brasiliense” na Inglaterra, que chegava ao Brasil por navios. Sua ocorrência se deu em junho de 1808, data anterior ao lançamento da “Gazeta”, o que fez causar muita preocupação na camada Real da sociedade. Hipólito defendia inúmeras reformas de âmbito social, posicionava-se contra a Família Real, exigia mudanças e lutava pela concretização da independência do Brasil. Contrastando com a Gazeta, que publicava apenas atos administrativos, cortes, decretos, leis... i.e., o que era de ordem da Família Real, Hipólito foi duramente punido por se portar contra os interesses da realeza. A raiz ideológica, vista do ângulo dos primórdios da imprensa régia, no Brasil, já indicava os rumos que as empresas do setor comunicacional nacional iriam projetar para e no futuro.

O surgimento da idéia e da prática da liberdade de imprensa no Brasil confunde-se com a concretização da independência do Estado brasileiro. A partir da instauração dessa “liberdade” é que surgem os primeiros panfletos e folhetins (pasquins) que, por sua vez, dariam início à pequena imprensa nacional. O pasquim caracterizava-se por não possuir periodicidade – quase sempre despareciam depois da primeira edição -, os textos eram produzidos por uma única pessoa (raros foram os pasquins que foram produzidos por duas pessoas ou mais), abordavam, na maioria das vezes, apenas um tema, usava uma linguagem voraz, “quente”, veemente e possuíam conteúdos partidários. O pasquim chegou a ser considerado anárquico, em sua época devida, em algumas facções sociais.

Com o advento do pasquim, abre-se um caminho onde “quase tudo” é legitimado e licenciado. A voz do povo, mesmo que de forma branda, começava a ecoar. Dá-se início a uma campanha libertária social, de defesa de interesses, de “discórdia sadia”, de debates que, no fim das contas, influenciariam o desenvolvimento político, social e econômico do Brasil. O jornalismo, em si, deve muito ao pasquim, por ter sido ele a expressão de um afã generalizado, onde se iniciava o desejo pela informação, esteja ela levantando a bandeira que fosse.

Mais tarde, o “Sentinelas da Liberdade na Guarita de Pernambuco, alerta!” (nome oficial), publicação sob o regimento de Cipriano Barata, por ter conseguido uma certa constância e periodicidade durante toda a sua existência já se constitui num marco da imprensa nacional. Outras características que o colocam em um patamar de destaque é o fato de ter alcançado um público fiel, principalmente em Recife e em toda a Bahia, por ter defendido e seguido um posicionamento combativo com a disseminação de ideais revolucionários, ou seja, permitindo-se ocupar a esfera pública, criar uma rede de sociabilidade, defender idéias que foram seguidos pelos demais. Cipriano Barata, apelidado de “O homem de todas as revoluções”, confunde-se com o estilo do “Sentinelas”, bravio, de temática contundente e sempre em busca de uma realidade social mais digna e justa. A propaganda, neste idos, ainda não era o que é hoje.

Com o aprimoramento técnico e maquinário, o jornalismo norte-americano começa a enxergar a possibilidade das massas, cuja influência ressoa até hoje na imprensa mundial. “Penny Press” ou “Jornalismo de Tostão”, além de trazer à tona a perspectiva da comunidade, da notícia local, acentuava sua expressividade pelo fator do baixo custo, o que tornou possível a sua visibilidade ampliada e percebida em segmentos sociais onde nunca se imaginaria antes. O “Herald” e o “Tribune”, que posteriormente se fundiram, são os seus maiores expoentes. Já o “Yellow Press” ou “Jornalismo Amarelo”, caracterizou-se pelo tratamento sensacionalista das matérias, agregando valor exacerbado à fotografia, prejudicando a qualidade textual; trazia manchetes enormes (geralmente com letras negras), o que fazia com que a realidade ficasse distanciada e distorcida. O “World” de Pulitzer e o “Journal” de Hearst são seus principais representantes. Tanto o “Jornalismo de Tostão” (Penny Press) quanto o “Jornalismo Amarelo” desenvolveram a maior de suas características: o caráter mercadológico da informação, através do aprimoramento esquemática de suas formas de arrecadação financeira (os assinantes, em primeiro caso, e os anúncios publicitários), além de influenciar o jornalismo brasileiro com a questão da objetividade.
Nélson Werneck Sodré, ao apontar as inúmeras características da Grande Imprensa, deixa claro que a maior peculiaridade desse modelo é o caráter mercantil da informação, ou seja, jornalismo que visa primorosamente o lucro. Para isso, a notícia passa por um processo de transformação e de lapidação, o que não significa um melhoramento em seu teor, apesar de ser mais qualificado, por ter corpo técnico/profissionais. É nesse modo de jornalismo que surge a divisão de tarefas; o corpo redatorial se define. Há uma esquematização do processo de trabalho assalariado. A transmissão das mensagens é feita através de uma linguagem mais adequada e, muitas vezes, padronizada. Há espaço para o jornalismo de opinião, o que não ofusca a relevância maior do jornalismo de informação. A periodicidade é regular e as temáticas variadas. Desse modo, Sodré faz uma análise amplificada do modo atual de se fazer jornalismo, apontando seus aspectos mais duvidosos e, também, seus caracteres positivos, além de assinalar que a “Grande Imprensa” é propriedade de famílias, respondendo a interesses de classe, etc.

O jornal “O Momento”, fundado por Giácomo Dias é relativamente pequeno e regional, todavia, de ambição de massa. O vínculo político/partidário com o PSDB não o impediu de vislumbrar um público mais numeroso, nascido nos idos de 1945, o jornal utilizava uma linguagem simples, mas que conseguia dialogar com os diversos segmentos sociais. A linha editorial era composta pelo trato marcante e diversificado das temáticas que mais interessavam à classe trabalhadora e menos favorecida. Lutava-se contra a carestia, os abusos políticos e as injustiças da sociedade. O corpo redatorial era composto por intelectuais da época, jornalistas, poetas e escritores bastante influentes em meados do século XX. Sosígenes Costa e Jorge Amado são algumas de suas peças mais fundamentais e notórias. A notícia era trabalhada; o repórter tinha de estar presente no local do acontecimento, o que dava mais realismo e credibilidade do conteúdo publicado. Assim, a notícia conseguia penetrar com mais facilidade todos os recantos do leitor. Depois de feita essa análise, podemos considerar “O Momento” como um jornalismo diferente no modo de querer atingir a massa, pois não explicitava a ânsia por lucro – ao contrário, desejava-se a massa através de seus próprios recortes, pensando de maneira notável na influência do modo de fazer jornalismo social, podendo ser também considerado referência para outros jornais por ter colocado em pauta temáticas sociais relevantes, como a luta dos trabalhadores, em contraste com jornais como A Tarde, O Globo, Folha de São Paulo e Cia, possuindo também periodicidade e noticias locais, apesar de ser partidário.

Dito isto, é mesmo impossível pensar em comunicação sem a visão lucrativa da coisa? É mesmo impossível informar formando? Mas, e a função da propaganda... não é a de propagar algo, uma idéia? Por que não usá-la para a propagação de um bem inquestionável, o do direito à cidadania plena? Por quê? Falar em cidadania é falar em liberdade, que, nos dias atuais, é uma tarefa difícil, dificílima. Agora imagine se o devido tema estiver ligado à palavra "Imprensa". Em épocas tão conturbadas e de custosos afloramentos de sensibilidade, a autonomia de pensamentos e idéias nos meandros de uma sociedade é, cada vez mais, assunto de destaque em discussões envolvendo profissionais do setor jornalístico, entre outros. Todavia, como é possível tratar esse objeto se, a cada ano que se passa, o número de jornalistas assassinados aumenta consideravelmente - só para citar um exemplo de "trucidação no meio"?

A população tem por direito conhecer os principais fatos que, cotidianamente, sufocam e despertam o seu interesse. Mas, se as pessoas encarregadas de levar a informação para todos os segmentos da comunidade estão sendo liquidadas, torna-se quase que impraticável o advento da liberdade de imprensa. A atividade de informar e opinar está se tornando um artigo de luxo, fomentando assim um povo débil e acrítico consumidor de asneiras modistas. Somente com o alimento da informação é que os indivíduos alcançarão o título da cidadania plena, com certa independência e capacidade para gozar de suas justas regalias. É incompatível depositar credibilidade na existência da falta de interesse dos jornais e dos próprios jornalistas, quando se trata da transmissão de notícias.

Saber compartilhar princípios de caráter básico sem prejudicar a transparência da comunicação é, atualmente, o maior desafio da imprensa em todo o mundo, e que deveria ser também da propaganda que usa dos mass media para existir e dar vazão aos seus pressupostos. É mais que necessário, em tempos de informação globalizada, que o acesso desse tipo de constituinte formador às comunidades mais desprezadas seja facilitado através de novas políticas de integração social. Não há mais espaço para nenhum modelo de censura no campo da comunicação. Vaidades à parte, a liberdade de expressão tem de assumir, verdadeiramente, o caráter de ser um manifesto livre de aprisionamentos. Só assim a imprensa e o jornalista serão capazes de, juntos, exercerem suas devidas funções perante a sociedade, começando por injetar doses e mais doses de esclarecimento ao povo.

Coletânea Art&Fatos


 Por Germano Xavier

Malinando em meus livros e papéis, encontrei um livreto (que pertence ao meu colega de jornalismo Luís Osete Ribeiro de Carvalho) intitulado Art&Fatos, organizado pelo Instituto Social Objetivo, na cidade de Salvador-Bahia. A publicação, datada de 2001, é o resultado de um projeto do setor de literatura da referida instituição e se resume no fato de que expõe e dá voz a alunos e suas palavras-poesias que, muitas das vezes, morrem perdidas e escondidas no tempo. Um projeto fácil de ser elaborado e posto em prática por parte de quem faz parte do setor de linguagens de qualquer confraria educacional/cultural e que tende a elaborar um novo estágio na percepção de mundo dos grupos envolvidos. No exemplar que tenho em mãos, pude desfrutar dos versos do meu colega-pensador (e de muitos outros graduandos), ainda infantes, porém já com alguns dos traços seus marcantes que só quatro anos mais tarde eu viria a conhecer e ler de perto quando formávamos a mesma turma de jornalismo e também participávamos da Revista Visões – Materializando Idéias. Salve, salve iniciativas deste tipo!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Interior de mim, exterior de nós


 Por Germano Xavier

do barro viemos,
do chão do amor a placenta
nutrida em mães
(o calabouço inquestionável)

ao barro iremos
como uma massa de modelar
o corpo sem corpo
da terra
construída na sombra e no vácuo
da mão que formata
até o branco no breu


Quinto poema-imagem da série Preto-e-Branco: Poesia.
Fotografia de Daniela Gama.

F.A., o mártir


Por Germano Xavier

Quer fazer o que quer! Não faz! Desde que arrumou aquele emprego no ramo da publicidade, deu para alisar almofada de espinho. Tornou-se mais um daqueles joguetes nas mãos de patrões pançudos. Fez de tudo nessa vida. Informal, judoca, comerciante de guarda-chuvas, servente de pedreiro, pichador de viadutos... Sempre quer ser tudo, sempre. Nunca foi nada. Um imprestável. Exalta-se sempre?! A mãe gritava da cozinha pelo nome. Ele, rompando, responde prontamente. Maneja gestos rudes de queixo, rabisca no quarto palavras beneficiadas, engole o ácido da crua vida. F. A. quer ser mártir de não sei o quê, mas quer. Pensa em viajar na boléia, equipando-se de paisagens sem final.

A mãe saiu e foi comprar vassoura e rodo.
F. A. quer ser mártir.


Quinta-Feira, F. A. saltou do ônibus corrido de um assalto. Não com ele, mas com o amigo. Entrou em desespero. Enxotou o rapazote o meliante. Pensou em intromissão. Não gostava de intromissões, entrar na vida assim do outro, desse modo, sem marcar horário. Pensou na mãe raivosa e na sua imprestabilidade de dias. Não satisfeito com sua desgraça mascarada por um terno azul e uma gravata vermelha, desceu a ladeira do bairro correndo. Veloz, aturdido e em outra dimensão, F. A. tropeçou e caiu. O rosto beijou o concreto duro e a quina da calçada. Saldo: dois dentes superiores e um inferior sem. Todos frontais. Juntou o sangue na boca. Cuspiu. Quis ir para casa. Andou. No caminho, lembrou da mãe neurótica e foi engolindo um tanto e cuspindo o outro tanto de sangue das gengivas.

O banheiro estava brilhando de tão limpo.
F. A. ainda pensava em ser mártir.


Hora do almoço era difícil encontrar a mãe em casa, nos afazeres domésticos e rotineiros. “Safei-me? Eu não sei o que faço. Agora mais lascado que tudo, que todos. Sem dinheiro, sem destino, sem vontade, sem dente, sem caminhão, sem boléia, sem dente, sem mãe, sem dente”. Foram três dentes. O sangue não coagulava. “Meu sangue estava quente. Preciso comer espinafre”. Abriu a geladeira. Comeu uma salsicha e um pedaço de queijo. Depois tomou iogurte. Caminhou pela casa. Entrou mais. Quarto. Pegou toalha e sabonete. Banheiro. Brilhando de tão limpo. Vassoura e rodo escorados na parede. F. A. procurando o sexo. Sexo com gosto de sangue. Fazendo e engolindo o sangue. Sangue quente. Água quente. Ele sangrando ele mesmo.

F. A. sai do banho.
“Vou ser mártir”.

Os passos da mãe próximos. Aproximação. F. A. no quarto, distraído. Mãe que entra pela porta dos fundos. F. A. no quarto, quase limpo, limpo de banho. Mãe neurótica com manchas de sangue na casa não mais limpa. Casa suja, mãe maluca. F. A. prestes a morrer uma morte diária e a mãe que pega de uma faca. Mãe entrando. Entrou. Um susto e uma frase “O que é aquilo no chão da minha cozinha, seu desgraçado!”... Chegou a hora de F. A.. A mãe pulando no pescoço de F. A. e ele que consegue esquivar-se. Lembrou da desgraçada gravata vermelha sobre a cama. Foi por trás, num golpe só laçou a mãe, deu um nó forte, a mãe ficando roxa, sem ar, F. A. sufocando a mãe neurótica, “eu vou ser mártir, eu vou ser mártir”...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Um só


varre o vento
o fogo áspero da relva
o brando brado dos ondes
a haste hostil dos pêndulos
iridescentes

varre o vento
a história de um senhor
com três quartos de vida ida
cuja memória ainda guarda uma procura
agravada pelas cenas aventurosas

varre o vento
o tempo parco páreo do nada
que não aprisionamos no relógio pulsante
do pulso sem impulso
mas pioneiro


Quarto poema-imagem da série Preto-e-Branco: Poesia.
Fotografia de Daniela Gama.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O trator


Por Germano Xavier

Para Caio Fernando Abreu,
porque “quem tem um sonho não dança, amor”
(Cazuza)


Numa velha garagem perdida no tempo parece se esconder a letal arma do mal. Uma peça mitológica de aço e ferro fundido, cujo sangue negro percorre as grossas artérias do órgão maior desumano, e cujas veias carregam o sal poluído na direção do tubo de escape, o cano que desfaz a matéria. Estamos num imenso galpão arqueado num V invertido, produtor de uma sombra estranha que mata o alimento do sol. Estamos pisando em parafusos retorcidos plantados no chão como sementes enferrujadas, adquirindo o tétano dos despojos maquínicos inúteis que adornam toda a paisagem metálica, arriscando-nos com ferramentas que não mais consertam, agora instrumentos de somente aperto e dor. Um virabrequim encravado na terra refaz o instinto do descanso assassino. Bielas serradas, pistões carbonizados, bronzinas tortas, cabeçotes empenados e pesos afundam o piso que abre a relva do caminho. Nada interrompe a potencial vitalidade da besta, mesmo parada há tanto tempo, adormecida dentro do casco.

Fora da penumbra artificial habita um verde bonito, sem artificialidades. Este verde tão intenso e tão capaz de iluminar o breu dentro e fora da noite ainda não caída. É realmente a presença e a certeza do verde mais perfeito. Um campo inteiro de grama como num tapete floral de algum império passado. O verde gerando todo o colorido possível, louca cor introduzida sem licença no tempo cinza, matando-o, pintando os imaginários enegrecidos com a claridade dos brilhos ígneos, mais adentrosos. Árvores silvestres passeiam sobre as costas das aves, que vão a vôo sedento. Um homem ali andando sentiria a fortaleza de um teatro feito de bem e mal, uma recôndita grandiosidade da história universal de duas almas controvertidas, contraditórias. O verde que é a vida, a cor da sombra que é o escuro.

Você está vendo uma garagem manchando um campo de flores, com uma besta adormecida dentro dela, velha, imótua, porém fatal. Patas enormes tem o animal, seus aros oxidados. Vinte e seis porcas lhe prendem os pés, seus sapatos de borracha, pneumáticos. A cor gerada na parca carenagem é um vermelho vivo, voraz, algoz. Vermelho sangre. Fios vários lhe atravessam o corpo modelo naked, expondo as ranhuras cerzidas pela mortal brevidade de sua existência. Adamastor da terra, que pode arar e tornar frígida a vau mais fértil, o grão melhor, lestrigão do mar quadrado. Vê-se um chassi corpulento e preto, manchado e intumescido de óleo, aparentando queimaduras e vazamentos. São sinais de assassínio. Os faróis amarelados abrigam insetos sem asa, insetos tristes. Toda uma selva arrependida tende de algum modo a se vingar. Mas ainda tudo é suspeito.

Há de denunciar o bloco negro gerador da força, da brutal alavanca. Onde todos os ruídos vigoram, todos os soluços, todas as mazelas, todas as pestes, todas os sarcomas, cânceres de nós que somos vítimas e alvos. Um rumor pondera dentro do esqueleto graúdo, rubor e vinda inquista. Se existisse um ali naquele instante, poder-se-ia fantasiar a ópera do barulho que ensurdece, que toma de nós o nosso aprendizado de dúvida. Mas isso é apenas uma possibilidade, quiçá uma fuga do pensamento. Não há homens, não há viventes no curto derredor que aquele galpão abrange. A garagem fecha tudo.

- Eu tinha medo da rosa. Medo do medo. Medo de não sentir mais medo, porque tudo iria se acabar. Porque o primeiro que iria seria eu, pobre, amargo, insosso, sem poder fazer nada. Eu tinha medo e relutava em fazer o que me pediam, em ir apenas, atravessar a rua. Mas quando vi a rosa de perto, quando toquei tua petalagem, quando adormeci meus olhos sôfregos de tanto imaginar mortes na suave casa daquela rosa, eu tive a impressão que tudo, dentro do meu maior susto, iria incapacitar meu falecimento. Eu tinha medo da rosa, mas isso era antes. Agora tenho medo de mim. Este que nasceu. Este outro.

Só delírio e os restos mortais de uma paz. O verde ainda havia, mas era um verde frio, cabisbaixo. A relva amassada por um suplício de deus. O negro da sombra chegando, como a tornar vazio toda a constelação etérea. Várias foram as histórias contadas por todo um conjunto etnográfico baseada em lendas e circunstâncias. Rostos patéticos, corpos destronados, árvores partidas, idas sem volta, desretornos. E nenhum homem.

Se olhássemos para o lado direito do céu, perceberíamos uma tempestade adentrando o espaço em azul. Ouviríamos pios agourentos das aves de rapina, toda a fauna se escondendo, os vegetais se cobrindo em espera, cerceados. Se olhássemos, enxergaríamos uma torrente satânica arregaçando o ventre da terra, vadiando com as presenças das coisas, das cores. Havia um sentimento de subalternidade pairando, airosa.

Perto demais para qualquer tentativa. Se houvesse alguém, este alguém teria de enfrentar. Este alguém olharia para seu flanco esquerdo e fundiria aversão e incerteza ao ouvir um ronco rouco de um motor e um tufo poeirento de fumaça perfumando a garagem perdida. Alguém? Quem teria acordado o mal de seu sono letárgico? Quem, das profundezas, resolveria vir e apagar de uma vez por todas toda a sanidade da mente? Para que alimentar o caos? Deus, potestade inalcançável em fúria e bem e mal, terias sido tu?

- Obra do demo! Vamos dançar nossa ciranda de pedra, baile instaurador das pragas! – gritou o homem que não existia. – O sol não é dádiva para todos, alma. O sol é uma invenção dos que traem o corpo!

Da garagem a besta acesa afana o silêncio. Está ligada em chamas, cuspindo no chão do céu a mácula árida. A besta está vomitando solenemente um grito soberbo. Vai devastar tudo, todo o corpo, todo o orgânico templo habitante do mundo. Vai engolir as vaidades, a poesia aplicada ao impreciso, fazer desgraça alterada. E o volume incendeia o galpão enquanto lá fora trovejada a terra não agüenta. Tudo o que vive instantaneamente desbota, como se fossem vertigens. Tudo aprende a morrer, a dar sinal de fraqueza. O fim é um relógio sem pilha.

A fera esbraveja, engatado na marcha de força, sussurra, brame, bufa. Salta ao campo e fere o pouco verde que resiste. Os pneumáticos sufocam as sementes. Espera o fim se afirmar de todo. Passeia pelo solo maltratado a procurar sobreviventes. A tempestade cessa. O firmamento não se aclara. A bruma escorrega com o vento e viaja para o distante. Está feito, o trabalho, a vitória é certa. Glórias, glórias. É tempo de a besta adormecer novamente, por muitos e muitos anos. A besta vai dormir o seu descanso merecido. Mas, espere!

- Não, não é possível! A flor que surfa permaneceu. Está intacta, como se nada tivesse acontecido ali. A flor amarela dos que bóiam sobre as ondas, marinheiros solitários. A flor que surfa permanece!

Reviravolteia-se, a fera indomada. Irada, colérica. Teu nome é sanha. Ruboreja-se enquanto instala-se frente à flor. Vai esmagá-la, não perderá tempo. É a última cor. Aviltante cor teimosa. Vai ser agora... a besta arranca na direção daquela que quebra a ordem. Um som fumacento tapa a ilusão dos olhos. Nada, por enquanto, pode ser visto. Teremos certamente de esperar um pouco. Talvez o desfecho.

Mas, espere!

- Pai Nosso, não é possível! A flor que surfa permanece.