terça-feira, 23 de setembro de 2014

Um momento de brancura

*
Por Germano Xavier

em homenagem à Dona Maria

A diretora da escola entrou pela porta da sala onde eu estava lecionando. Três e tantas da tarde. Os meninos estavam compenetrados, todos com seus cadernos abertos e suas canetas afiadas. Daniel, o aluno mais engraçado da turma, estava diante do quadro, resolvendo uma questão que eu havia proposto poucos minutos antes. Olhei para ela, que caminhava com passos firmes na direção da lousa. 

A diretora me pediu uma pausa. Com o rosto misto de surpresa e tristeza, deu a notícia. A filha de Dona Maria falecera naquele instante em algum hospital da capital. Estava muito debilitada havia dois anos, soube depois. Dona Maria é a merendeira da escola, senhorazinha de idade avançada que sabe abraçar como ninguém. A filha falecida era também a mãe de uma de minhas melhores alunas. As aulas do próximo dia seriam suspensas. 

Liberei a turma. Alguns até, enquanto saiam, reforçavam-me a ideia de que a filha de Dona Maria vinha mesmo sofrendo em demasia. Como o lugar onde moram é pequeno, grande número a conhecia por detalhes. Guardei minhas coisas e fui para onde Dona Maria estava. Atravessei o corredor, entrei na cozinha. Dona Maria estava sentada, amparada por outras pessoas e chorando fraquinho, como se esgotada pela dor de perder a filha querida. Um retrato de partir o coração de qualquer alma sensível.

Em seu livro DO UNIVERSO À JABUTICABA, Rubem Alves escreveu: “Não acredito que haja dor maior que a morte de um filho. A princípio é uma dor bruta, sem forma ou sem cores, como se fosse uma montanha de pedra que se assenta sobre o peito, eternamente.” Fiquei a imaginar o vazio que se instalara no peito de Dona Maria ao saber da infame notícia. “Dor bruta, sem forma ou sem cores”, pensei. Restou-me abraçá-la, dizer mínimas palavras e compartilhar de seu momento de brancura, de falta de cor.

Quando a normalidade da vida é quebrada por uma fatalidade, e uma mãe enterra um filho nascido de seu ventre - quando o normal é suceder o contrário, o filho enterrar seus progenitores -, a morte se apodera de nós todos, ainda mais, revelando sua face insistentemente cruel e indiferente à beleza da vida. A morte se dizendo viva, forte, operante. Deve passar um filme de muito amor e saudade na mente de quem permanece. Nas palavras do escritor campinense, é quando passa a existir “aquela dor que é pura tristeza pela ausência.”


* Imagem: Google

Um comentário:

PERSEVERÂNÇA disse...

Feliz quinta-feira!
Que delicadeza na escolha da imagem e do texto, parabéns!
Beijinho
Nicinha