quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Opúsculo contramítico para quintais II


 Por Germano Xavier

#6

sem quintal,
uma casa agride infâncias.


#7

Zé Vicente um dia veio com um presente
dentro do bocapil,
e por muito tempo aquele galo
reinou soberano
no fundo do quintal.

robusto,
encandecidamente de rubras penas,
com esporas que lhe atrapalhavam o andar
de tão grandes e curvadas,

era ele, sempre
e incansavelmente,
quem descortinava as manhãs.


#8

certo dia,
brincando de polícia-e-ladrão
com o meu irmão,
e escondido em cima da mangueira,
meu tio pensou que era um coleirinha.

(resultado: despencou da árvore
e deslocou o calcanhar, ou seja, ladrão preso.)


#9

tem aranhas-de-terra
despistadeiras de chuva,
tem abelhas em mangas pousadas em queda,
gatos passeando sobre os muros,
tralhas encostadas e ferrugens vivas,
passarinhos peregrinos de algodão,

tem brabuletas feitas de seda,
vespas na areia de construção,
bichinhos que não sei o nome
e que gostam de andar em nossos braços...

tem até o Sr. Redemuin
que faz uma bagunça danada (de boa)
quando a gente teima em barrer as (in)purezas quintálicas...


#10

quando estiver num quintal
alheio e o dono da casa
perder de vista,

jamais ouse assuntar em si
meninices não curtidas.

3 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"passarinho no quintal by ~jcraice"
Deviantart

Angélica Lins disse...

Essa sua mente preciosa em simplicidade me encanta, porque canta tudo o que eu sinto em poesia.

Minha sempre admiração.

disse...

um quê de manoel de barros...
"sem quintal
uma casa agride infâncias"
é muito lindo.