quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Opúsculo contramítico para quintais I


Por Germano Xavier

Para Cristhien Lélis e Renato Solon,
amigos compositores de estradinhas de quintal...


#1

uma vez um duende de jardim
extrapolou seus limites
e invadiu o quintal lá de casa.

escorado na pitangueira,
não ficou muito, veio
só me alertar
sobre a periculosidade artística
das formigas de poda.



#2

lá em casa é assim:

de um lado, portas atravancam
entradas, feito fortaleza.

do outro,
sapos linguarudos, jacarés e joaninhas
de gesso impressionam olhares
desavisados.

tudo e todos protegendo o quintal
dos exterminadores de vastidões...



#3

eu me recordo bem
dos três pés que haviam...

quando derrubaram a mangueira do meio,
percebi que a morte era um poente ensolarado.



#4

pegue caixinhas de fósforo
e com água molhe o barro vermelho.
entupa as caixinhas com a terra
e deixe ao sol para secar.

no outro dia,
feliz e com sorriso curioso,
retire das fôrmas de papel
os tijolinhos de construção:

após dez ou quinze anos,
você verá que as ruínas da infância
não se apagam com os temporais.



#5

estradinhas feitas com cacos de telha,
joelhos roxos de tanto rastejar
curvas, retas, paradas, estações...

por que aquela velha noção
de que os caminhos mais surpreendentes
eram os mais distantes?

2 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Quintal by ~bonomatos"
Deviantart

Letícia Palmeira disse...

É de ler e sentir inveja. Tantos andam capengando pra escrever um verso e você trabalha veloz e profundo tirando da terra e da infância coisas que muitos não sabem dizer.
Eu te bendigo.