quinta-feira, 14 de abril de 2011

A ponte


Por Germano Xavier

a noite caía feito um presente para os moradores do Vale do Riachão. depois de um dia sufocante de trabalho, os corpos matutos precisavam mesmo de um bom e prazeroso descanso, ao som dos curiós e pintasilgos que tocavam os seus últimos acordes no belo dia de primavera... o sol não havia despejado os seus primeiros raios sobre a terra, quando Pedro colocou os pés sobre o chão e içou vagarosamente seu corpo. mais um dia de batalha começava para ele e para outras centenas de pescadores que, assim como Pedro, trabalhavam o dia inteiro, sob um sol escaldante, para assim poderem sustentar suas famílias. Pedro era o filho mais novo de um clã de pescadores muito respeitado no Vale. no auge dos seus 32 para 33 anos, exibia por onde passava um físico enormemente preparado, porém marcado pela labuta diária. a sua casa ficava às margens do rio Salmão, fonte de renda para toda a população local. todavia, era preciso atravessar o rio para que se pudesse chegar à fazenda do seu irmão Saulo, que apesar de ter mais idade, não aparentava o mesmo sofrimento do irmão em sua pele, devido grande parte a sua inoperância cotidiana ou, em outros termos, a sua preguiça. apesar de Pedro jamais ter aceitado a ociosidade do seu irmão, eles se davam muitíssimo bem, o mesmo acontecendo entre suas respectivas esposas e filhos. mas, como tudo um dia nesta vida descamba a dar errado, eis que os irmãos de amizade quase inabalável se desentenderam fortemente por causa de uma remessa de pescado que Saulo não pagou à cooperativa que beneficiava toda a produção regional, e que estava sendo alvo de inúmeros protestos na comunidade. depois do bate-boca, Saulo prometeu que nunca mais visitaria Pedro, e assim se fez por longos sete anos. destarte, eis que surgiu, como vindo do céu, um marceneiro desempregado pedindo desesperadamente por um serviço na fazenda de Saulo. necessitando de alguém para cercar seu estabelecimento, Saulo contratou o homem e o designou a realizar o trabalho. pouco tempo depois, Saulo viajou com a família, enquanto o moço iniciava a construção da cerca. logo ele ficaria sabendo, pela boca dos vizinhos, a respeito do dilema do patrão com o desconhecido Pedro, e que a cerca que começaria a erguer serviria para afastar ainda mais os dois irmãos. o marceneiro, dentro de si e caído em profunda reflexão, não aceitou a ideia de ser o interlocutor do afastamento de duas pessoas pelas quais correm o mesmo sangue e, resolveu, de livre e espontânea vontade, construir no lugar da cerca uma ponte unindo a casa de Pedro à fazenda de Saulo. quando a família chegou de viagem e se deparou com tamanha e ousada arquitetura, não houve um que não tivesse ficado imóvel e abismado com a audácia do pobre marceneiro. Saulo, irritado, logo exclamou em voz alta: - eu te mando fazer um cercado e você me aparece com uma ponte. você me deve boas explicações! o marceneiro, com respiração e olhar decisivos, explicou: - não é justo separar dois corações que no fundo se amam. esta foi a única forma que encontrei de mostrar ao senhor que tudo tem, por mais que seja difícil, um agradável recomeço. e para isso acontecer é necessário que alguém tente solucionar o problema, que o senhor caminhe por esta ponte até a casa do teu irmão agora mesmo, que peça desculpas ao mesmo tempo em que o abraças firmemente. Saulo, assistindo todo aquele depoimento e vertendo águas salinas pelos olhos, de pronto começou a se movimentar sobre a ponte, como se sentisse arrependido, e assim foi ao encontro de Pedro. pediu sinceras desculpas por todos aqueles anos longe do irmão, abraçou-o com toda gratidão e os dois reconciliaram-se.

Acredito que todos saibam o final desta história. Vivemos num mundo que aprendeu a isolar os indivíduos, a pôr redomas em cada um, a cercear a liberdade, e que ao invés de construírem pontes, levantam muros, cercas, paredes e grades. Onde vamos com tudo isso?

2 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Ponte de Lima I by ~reload-smith"
DEviantart

abuscademimmesmo disse...

Os seus exercícios prosaicos são como retratos pintados a tinta multicolor...
Prossigamos.