sábado, 17 de novembro de 2012

As coisinhas de Adélia



Por Germano Xavier

era Adélia, uma vez que fora esse o nome que a menina havia recebido dos pais, mesmo muito antes de esboçar a abertura dos olhinhos pela primeira vez, aqui, neste mundo. era Adélia, menina muito bonita... mas eu não preciso sair por aí espalhando aos quatros ventos que ela tinha cinco dedos em cada uma das mãos e cinco dedos em cada um dos pés, ou que tinha ela duas orelhas, dois olhos, dois cotovelos e um nariz, porque essas coisas são normais. a gente já nasce com elas. porém, há coisas que nem todo mundo possui, e são essas coisinhas que nem todo mundo possui que nos tornam diferentes das outras pessoas.

Adélia, por exemplo, tinha olhos que mudavam de cor com o passar dos dias da semana.

nas segundas-feiras, eles ficavam com a cara do mel: eram olhos caramelados.

às terças, cobriam-se de um amarelo de ouro: eram olhos dourados.

às quartas, de rosa: eram olhos rosados.

às quintas-feiras, imitavam o céu: eram olhos celestes.

às sextas-feiras, tornavam-se da cor das mexericas: eram olhos mexeriqueiros.

aos sábados nem se pareciam com a cor do mar: eram olhos amarronzados.

e aos domingos, dia de brincar muito, pareciam adquirir as cores de uma fogueira em brasa: eram olhos acesos.

era negra, Adélia, de altura mediana, magra e de cabelos tão longos que só não eram confundidos com as enormes mechas da Rapunzel dos contos de antanho, porque onde ela vivia não haviam espinhais nem torres antigas.

na escola, Adélia era a melhor aluna de sua classe, sempre de tirar notas excelentes, em todas as disciplinas. prestava tanta atenção que, nas aulas sobre Astronomia, parecia estar sempre no mundo da lua.

para as aulas de História ia vestida de guerreira, com direito à armadura medieval e tudo!

colocava um jaleco branco nas explicações do professor de Física, para se parecer com uma cientista.

e nas aulas de Educação Física, a menina se assemelhava a uma atleta participando de uma Olimpíada.

bastante inteligente, os outros meninos diziam que ela conseguia guardar tudo dentro de sua cabeça, feito um velho baú.

uma vez o seu vizinho Calixto disse que na cabeça dela cabia o tanto de coisas que coubessem no mundo inteirinho. e foi justo nesse instante que Adélia pôs as mãos na altura da nuca e, num lance de energia mágica, sua cabeça explodiu, assim, do nada, em um instante de esplendor...

era Adélia, e eram também suas coisinhas... coisinhas normais para ela, como explodir-se, assim, feito traque em noite de São João.

3 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Fairy House by *flina"
Deviantart

Flávia Amaro disse...

Amei.

margoh werneck disse...

adocicou meu olhar.
gracias!

beijo