quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Guernica impublicável



 Por Germano Xavier

Dada a louca no tempo e não sei como suportei tudo até agora. Por isso resolvi sair ao cair da noite. O fator humano ainda é o que pondera em mim. Não adianta a esquiva, o golpe de vista, fingir que não foi nada, porque por detrás de tudo ainda havemos de insistir em nossas cegueiras, tão pecadoras. É de nossa falta de visão que brota a maioria de nossas virtudes, mas também a grande parte de nossas mendicidades. Estamos assim, estou, porque inventamos esta guerra desenfreada, este universo explodido, esta humanidade sem memória. O essencial da guerra vai ruir conosco, quando tombarmos no vau, sem água para beber, sem comida para comer, sem sangue para rodar em nossas veias, sem o sol e sua misteriosa chama. Tenho consciência de que pequei durante toda a minha vida. Penso que sou ruim e talvez por esse fato eu tivesse tido mais forças para sair quando resolvi que era a hora. Relógio no pulso, cigarro entre os dedos, meu cabelo despenteado, minha bota surrada, minha calça de pano, minha jaqueta de couro, meus olhos deixados para trás. Ainda verei o pôr-do-sol de meu fim, no ancoradouro. Eu parto quando alguém me cede um tempo, não permaneço aqui. A natureza é a única utopia existente e eu não pretendo esperar que você estenda a sua mão e, como quem não duvida de nada, mostre-me o caminho. Eu preciso apenas de mim, este que está adormecido, sonolento e fissurado, mas dentro do que sou, dentro do que tenho. Nessa guerra que travo quero destruir tudo que me faz lembrar a pessoa que já fui, de um mundo que já vigiei. Aí está o segredo. Começando por mim, posso chegar mais rápido ao meu objetivo final. O fim particular é um meio de salvar o profano, o público, aquilo que restará porque não demandará preservação. Afundando no charco último dou meus primeiros passos na direção da eternidade, hora somente minha e conjugada pelos olhos que vêem e não vêem, todos juntos. Faço a guerra, saindo agora, da liberdade. Sou fiel a mim mesmo. A liberdade é tudo aquilo que não quero para mim. Eu sou o movimento fixo e flexível que só o amor pode elaborar. Meu amor pelo estrangeiro que sou é mais que um sentimento sagrado, chega a ser bestial. Meu amor por ele é o início de uma maratona de rebeldias. Eu saio agora para renegar o meu antigo nome, para abolir a escravidão a que servi, para apagar o nome das minhas vergonhas, dos meus vexames, das minhas imprudências. Toda a minha fortuna, se é que a tenho, pô-la-ei no lixo. Estou na pior e vejo que estou bem demais. Não devo conservar minhas vaidades e perseverar por esta rota. Saio e não deixo vestígios, pois quero me perder. Eu estou perdido e na praça o tempo passa nos passos de quem anda, na nervura do calçamento, na buzina do operador. O que fiz da minha vida não tem volta, não tenho volta, fiz da minha vida uma vida sem vida, uma volta sem volta. Sei bem e o que posso fazer é continuar, mesmo sem retornos possíveis, ir adiante até o fim da jornada. Descubro agora, tarde demais?, que tenho talento para desfechos cheíssimos de glamour, para chaves-de-ouro incontestáveis. É, por ora, a minha mais bem vista radicalidade. Mas estou satisfeito, já me encontro longe do que eu era. Quando tudo tiver prestes a acontecer, relatarei minhas experiências numa obra de arte sem voz, velada ao sossego dos mortos. Escapar de qualquer dominação humana frente ao humano, ficar distante do outro que enforca o outro, seu semelhante, só com o fim brutal será possível. Eu quero um segundo que seja de esperança, da total anormalidade pacífica, um oceano de maturidade sendo despejado em minha cabeça, ânfora revolucionária, frente de batalha. Darei baixa no que vive e atormenta, serei o amargo e desencantado testemunho ocular da consolidação de um feito. Entrarei no abismo porque existe o falso exemplo, porque há a mentira estúpida e as verdades aprisionadas. Poderei ser também o covarde que abandona a tropa, que deserto por trazer na pele um reles ferimento, que foge em disparada para a pousada dos sonhos. Mas na praça só vejo muros, alambrados altos impossíveis de transpor. Algo, como que instantaneamente, considera-me fisicamente inapto. Eu olho ao redor e não vejo saída para o meu fim. Bem poderia em meu peito uma faca enfiar, um projétil atirar, mas a faca e a bala, armas falsas, mudariam de suas trajetórias. Elas não me acertariam em cheio, atingiriam os muros, vazariam ecos profundos. E o meu martírio, fabricado com o desejo de pôr fim à minha saída, propende agora para o fiasco. Começo novamente a sentir o peso de minha roupa, esta carapaça de couro e brim. Começo a me esquivar do fim, do objetivo que quis, de meu fim. A impossibilidade de me deixar impossibilitado me arruína. Sou o fim sem fim, inútil afã, rouco grito abafado pela voz que nada diz. Eu que pensei que fosse fácil e possível, que bastaria eu ter dado o primeiro passo, o de ansiar, para que o gole do veneno rasgasse a minha garganta como um demônio espetando o tridente na altura de meu pescoço. Morrer assim é impossível? O que se deve fazer quando não se necessita mais da vida? Por quem espero? Quem irá querer ir comigo? Morrer... a noite vai alta, a noite vai, eu fico, infelizmente, preso à minha liberdade, impedido de viver por estes muros altos, por estes soldados entorpecentes. Como eu queria ver! Como eu queria... e ter esquecido o caminho de volta para casa, e ter perdido as chaves de casa, e ter perdido a existência de minha perdição! A minha raiz cresceu, estou de volta. Retiro tudo que contém poeira. A sala escura, o corredor escuro, o quarto escuro. Estou de volta. Eu apago a luz que não há.

3 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"where the souls lie
by ~Miss-Deathwish"
Deviantart

P. Sousa disse...

Como sempre, as palavras se rendem ao seu bel-prazer, numa encruzilhada sinestésica...

Continuemos...

Pê Sousa

Controvento-desinventora disse...

Não. O fim não há. Tudo é eterno demais e falso é o poder que julgamos ter na, pela e contra a vida. Enquanto, somos desejo de morte vivemos...morrer? A vida não permite.Deixa-nos só partir...sem nada, mas carregando eternamente o que somos e os caminhos que fizemos.