terça-feira, 13 de novembro de 2012

Escaler de consigos


Por Germano Xavier

Não entendo como pode doer tanto. Longe pareço estar de qualquer afetação ou de qualquer arritmia vital com poder suficiente para desestabilizar as faces de minha fundação, mas mesmo assim um escuro teima viver dentro dos abrigos por onde não me consigo guardar. Não entendo o que acontece a mim na maioria das horas que me conhecem, ou mesmo nas de desconhecer-me puramente nem por que insisto em ver as formas tortuosas nas linhas retas, a concavidade nos centros dos objetos convexos, a imaturidade das almas sem madureza que pairam no ar do mundo e eu não entendo, sinceramente, por que motivo persisto a percorrer os caminhos que parecem não dar em nada, porque a estrada que me é previsível e que tende a me levar a algum lugarejo de certezas me soa como uma afronta das mais inconcebíveis.

Não entendo como é possível tanta dor sem se estar ferido, como pode tanto sangue jorrar de dentro sem nenhuma abertura na pele que possibilite o extravasar do líquido vermelho, como é incessante o gotejamento desta dor ácida no coração dos meus órgãos. Eu que não fecundo o pensamento de suportar a idéia de se estar morrendo e vivendo ao mesmo tempo, como se a natureza estivesse eu a desrespeitar, como se eu mesmo fosse um tempo de areia a cair na gravidade que a morte implica a determinados estandartes anunciadores do futuro, cometendo o delito de utilizar-me de atalhos para o chegar mais próximo das essências pontuais de que a vida estabelece. Não compreendo como toda e qualquer palavra pode vir a se tornar uma desolação, e perder toda a bonomia inerente em suas arestas, despetalando-se como uma flor doente sem sustentação sobre uma terra sem a água necessária, sem o sol principal a presentear-lhe o dom maior.

É como se alguns de nós tivéssemos de nascer para filtrar durante a vida inteira a dor das grutas do homem, dor incurável, sem remediação. Dor que envolve da máscara à lava primordial humana, que dilacera o corpo aparentemente forte no silêncio caído das noites, que não é gerada de um machucado físico, mas sim das coisas inexistentes que nos abraçam cândidas e mórbidas nas horas mais improváveis. A dor de ser gruta, de ter sido no passado algo afeito a uma passarela unitária para caudalosas águas dançarem no vão das paredes nuas, viajando léguas perdidas na certeza do sem-fim. A dor de sempre ver a luz, mas ser sempre o breu, de não passar do breu quando na verdade se queria ser o lume. Como se alguns de nós tivéssemos de viver para sofrer uma dor que nos esgotará até o limite de nossas aceitações de carne, que nos enfraquecerá impiedosamente até não aguentarmos mais tanta queda, e que, de modo também incrível, dar-nos-á o impulso para arrancar forças de onde impossível possa ser suspeito e assim, no meio do torvelinho das contrações de sofreguidão e lamúria, poder ser tocado pela luz que existe no topo das cavernas, encoberta pelos seixos ancestrais.

Para além da minha dor há uma fábrica de hecatombes, onde dores maiores que a minha convivem em harmonia, pluralizando-se intermitentemente. Tal uma dor cósmica, feita para aglomerar desmanches de toda ordem, a dor do mundo de alguns se resolve por si própria e se espalha em terror. Eu me resguardo no mar que não existe e que não mais atravessa a gruta e, por incontáveis vezes, torno-me o mais resoluto vazio. No traço esquecido e sem linha, deixo-me no não entendimento das doridas coisas do mundo e da vida, e remo a direção dos esclarecimentos que a escuridão pode trazer, nunca me tirando o gosto amargo de sofrer pacas, rolando abismo abaixo sem poder levantar o corpo de qualquer órgão de vida, permitindo à luz sagrada do que não brilha o enveredar-se por meus vestíbulos secretos, meus corredores de ostentação e luxo, cujo conhecimentos plenos somente com as devidas provações de dor poderia desbravar.

4 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Beneath the reach of light by *vbagiatis"
Deviantart

Cris Campos disse...

Teu belo texto me remeteu a uma de minhas catarses da qual deixo aqui um pedacinho. Na realidade me identifiquei muito nele. "De certa forma toda mudança profunda nos leva a apreciar outros aspectos que circundam, traz a tona uma coragem desconhecida, hesitações que finalmente ousamos enfrentar, o desajeitado que torna-se impecável, os conceitos obsoletos que acabamos por superar e um encontro mais durável com a coerência. Vou descobrindo que nem sempre meus miolos precisam ficar estatelados pelo chão, que talvez um equilíbrio seja possível ainda que me pareça "im"." Enfim, provações fazem parte do caminho, cresçamos então com elas, mesmo que nos doa. Gr. Bjooo!

Anônimo disse...

Pra ser lido uma, duas, três, infinitas vezes. Um primor, Geo. Não esqueça de ver a poesia nas coisas. Talvez tenha sido a pessoa que mais me conheceu na vida. Beijos. Natália Macedo

Urbano Gonçalo disse...

Ufa Germano!!
Do melhor e do mais inspirado que li ultimamente.
Amigo, este post veio ...de dentro mesmo.
Obrigado, pela partilha.
Fica bem , abraço.