segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O matador de touros


 Por Germano Xavier

"Morrer não é acabar, é a suprema manhã."
Victor Hugo


Um homem empunha um pesado martelo. Cabo alongado, em madeira leve, para o tiro certeiro com o maciço de ferro. Cinco quilos na bola de ferro. Bíceps e tríceps forjados no labor instaurado na hostilidade do galpão. Foram anos de espera e agora o dia havia chegado. Conseguiria derrubar a mais firme parede com um só golpe. Um soldado sem farda, um guerreiro sem armadura, um matador sem lei. Calçado com uma bota de borracha, cano longo, de cor branca e sangue coagulado, o homem olha o animal. E são olhos cruéis. Olhares marcados pela agonia da véspera final e pela fome, pela ganância maquinal. Não há tempo para palavras reconfortantes ou estritas condolências. É uma guerra que se inicia, um contra o outro, ser contra ser, visão contra visão, uma indissociável relação nada displicente, tétrica, evasiva. O touro, com grossas amarras lhe forçando a cabisbaixeza da cabeça, não economiza das forças brutais. Atiçado pelo silêncio rançoso e escuro do lugar, volteia com ira seu corpo ao redor do gancho que lhe serve de forquilha. Preso, o touro encontra na hora hedionda a ostensiva prodigalidade de sua consciência. Vilipendiado pela ação do ser de botas borrachudas, o touro começa a pensar. No seu foro íntimo e ruminante, o animal tem consigo a nítida visão dos vastos horizontes inatingíveis. O animal, sem aparentar a tradição de sua calma soporífera, recorre à arguta pachorra dos diabos. Estão os dois, enfrentando-se megeramente, histéricos por dentro, com seus corações percutindo todas as decaídas morais, todos os infortúnios monotípicos e sem ética, todos os seus desgarres. Estão ambos sofrendo com a maior dor, o pensamento. No regaço dos leitos corporais, o pensar aturde com frementes espasmos pontiagudos a razão para a precarização do encontro. Os dois sabem que não haverá um vencedor. Os dois sabem que não existe vitória numa guerra. Os dois não mais suspeitam da validade dos despistamentos, porque não há para onde fugir nem tempo para ser gasto. E mesmo assim, apreensivos pela pressa sem rumo, atormentam-se, um ao outro, em persuadidos gestos. Persiste no ar uma sombra desejosa. Toda guerra não é em vão. Todo embate só vigora porque no fundo de tudo, no imo da vida, contrasta-se o ir vivente em dor e prazer, em amor e ódio, em vida e morte. Somos todos alterados pela ordem secarrona do dia. Sem a aquiescência do outro, aprendemos a pisotear, a esfolar, a trucidar. E esse mesmo outro, atingido sem licença pela instância algoz do outro, imanente apodera-se também de uma qualquer cólera e arremete-se diante do já tão fresco inimigo. E vai nascendo um universo perdido, um anátema precioso para a doutrina do cão. Acobertados pela insanidade do saber-estar, as unidades de gados diferentes — a separar: gado humano e gado animal — dão início ao combate. Como se sobreviesse aos mugidos frenéticos da unidade do gado animal, quis a unidade do gado humano ter a melhor localização para a efetivação da matança. Ficaram por alguns demorados minutos, frente a frente, espreitando-se como que a estudarem um ao outro. Podia-se ouvir o nervosismo do animal acelerando cada vez mais a ruína do silêncio. Já sentia com antecedência o que aconteceria. Encurralado, espetado com uma vara, o touro cheira, vê o sangue e os pedaços, em diversos cortes, dos animais que o antecederam. Entra em pânico quando o homem puxa ainda mais a corda, fazendo sair uma tênue nuvem de fumaça oriunda do atrito com o gancho central. O touro está prestes a beijar o chão, tamanha é a pressão da corda em seu pescoço lhe puxando para baixo. Com enorme dificuldade, o ar ainda entra em seus pulmões. Inutilmente, tenta se livrar do medo, que agora o devora, saltando, ligado ao eixo do gancho. O movimento é circular e cada vez mais rápido. No contratempo da circulação, o homem belisca o couro do animal na intenção de estancar seu desespero. O touro sabe que algo irá acontecer a ele. Mesmo curvado, olha doloridamente para o rosto do matador. É o mesmo olho cruel de quando foram apresentados no primeiro momento. O homem busca a inconsciência do seu rival, o não monitoramento de suas ações, a perda dos sentidos, a queda brusca, como quem almeja possuir o opositor, possuir totalmente, para exercer seu domínio e exibir a carne de sua glória para a maioria possível. Repartidos ao meio, no avesso do tempo, o humano sagrado e o humano profano, reconciliam-se, devassos, diante do mundo. Mas em eterna luta, desregrados, meros potros, transfiguram-se em fabulosos centauros, míticos seres selvagens. E sob os auspícios do olhar, do sentir, do querer, afumegam-se em barbáries múltiplas, cativando o caos e toda ordem desordenada. Enlouquecidos, no sempre eterno desterro da alma, animalidade e humanidade dançam uma valsa imortal, prescrevendo os antídotos para as desgraças inaugurais. Tombados na pequenez de seus poderes, gado humano e gado animal disparam sôfregos sopros de vida pelas narinas. O animal não desiste, debate-se contra si mesmo, contra o ar, contra a órbita que percorre — sua última caminhada —, contra a certeza de pensar que sua irracionalidade é inválida no momento mais difícil. Aproximando-se do bicho, o homem escolhe o tempo, massageia os segundos, cuida dos ponteiros. Ele está em vantagem. O homem está em vantagem e desde que acordou, no dia de hoje, sabe o que tem de fazer. Ele não voltará para casa sem realizar seu trabalho. Sabe que não pode perder, tem medo de perder, não vai perder. Ele sabe de tudo e decide a morte. Puxa com sua maior força a corda e dá o nó áspero que torce a garganta do diabo. Arfante, o demônio beija o chão ensangüentado. Sente o gosto do ocaso, o sal do fim, o acre do breu. Já não pode com sua própria força, perde para a consciência que tem de si, enquanto corpo e matéria. Já não suspeita de suas dimensões nem do seu peso, tampouco enxerga a aproximação sorrateira do algoz. O touro fecha os olhos, suga um punhado rasgado de ar e, candidamente, numa paciência de dar inveja a qualquer deus, investe toda a sua garra no pensamento. Recobra a consciência perdida dos olhos e vê através da dignidade de sua pele, da fidelidade do ar e da solidariedade de seus músculos. Apesar de tudo, ele não cai. Atrás dele, coexiste o humano. Atrás dele, a bola de ferro humana. O animal silencia. Ouve passos, curtos, espaçados pelo minúsculo destemor da glória. São passos impulsionados pela história de uma vida, pela travessia tortuosa de um destino, pelo pontilhamento acercado por danos infinitos à mente. Pressente, o diabo, a voz do deus. Voz que não diz, voz que não cala. Um tormento. Turbilhão de outras vozes numa só, perfurando o oco dos ouvidos. Inerme, sem ter para onde ir, o animal continua. Parado por opção, o touro espera. Há passos. Coisas que vêm, ondas de vento diferentes povoando a couraça quente, advertindo-o acerca das possibilidades, prováveis e improváveis. Ele sabia que não sairia dali. Homem tapando a certeza, empurrando contra o piso gélido a proteção insincera. Falsificando a dádiva da morte, ficcionalizando o roncador barulho que menos castiga. Passos. Deus e o demônio, juntos. A pancada no crânio, a valsa triste das patas, a água babosa fazendo espuma na boca, o solo metálico da queda da bola de ferro jogada ao chão, a orquestra da interrupção da vida, da invasão, do apressamento. Deus e o monstro, o cavalo gordo de carne, o rústico bicho que alimenta a fome, deus unido à besta, ancorado pelos tendões e ossos rasgados no cais derradeiro. Deus degolando, processando a repugnância de ser humano e personificando a devassidão dos mitos. A produção do centauro, da raiva cega e da dor. Mas ele sabia, demoníaco deus que era, que não há vencedor numa guerra, que o que viria após a morte da vida seria apenas a certeza do eterno retorno às nossas mais célebres pelejas ancestrais. Que tudo poderia ser culpa da lua em sagitário, e que o que ficaria guardado dentro de si continuaria vivo durante todo o tempo do tempo, como numa cadeia espiritual que atravessa com paciência todas as eras terrestres.

4 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Touro de Osborne by ~inespataco"
Deviantart

Controvento-desinventora disse...

Intenso, profundo, muito bem escrito. Há um tom visceral e nossas narinas ,também bufam durante a leitura desse enfrentamento, que é nosso, pois nos faz lembrar que somos (i)mortais diante a arena da vida.
Brilhante!

Flávia Amaro disse...

O que dizer sobre este conto?!
Forte, genial, sugestivo e mais, muito mais.

Ler seus escritos já faz parte da ritualização da minha rotina. Te esmero caro Germano.
Abraços de sua cativa e entusiasta leitora.

Luis Eustáquio Soares disse...

todas as primeiras
as segundas
as terceiras
imaginárias eras
concretas
do punhal no chifre
do tempo,
no tempo em que
se morre na imortalidade
e se nasce
na mortalidade
o nosso
saudações
luis