sábado, 7 de abril de 2012

O dia do acabamento


 Por Germano Xavier

no dia do acabamento
a musa hollywoodiana do último filme do Bond foi engolida por um bueiro
enquanto passeava na Travessa do Ouvidor, no Rio de Janeiro.
todos os ministérios se calaram em suas insignificâncias de gravata.
os aviões supersônicos caíram de bico quebrando dentições avulsas.
as gaivotas boiaram nos oceanos formando uma nuvem sem paz.
todos os papéis escritos por todos os escritores viraram féculas negras.
o dinheiro não serviu para absolutamente nada.
as vangloriações cor de ouro desceram correnteza abaixo
 pelos poucos rios que sobreviveram à catástrofe.
a televisão de 98 polegadas com sistemas nanotecnológicos do meu vizinho revelou ser frágil.
a esteira não rolou.
o quadro da bicicleta de 21 marchas derreteu.
todos os carimbos destintaram-se.
o homem que comia katchup na mercearia ao lado do cineclube falido deixou de ser homem
para se transformar em Gregor Samsa.
Cioran permaneceu no submundo.
nenhum Kamasutra foi revisitado.
a doença virou mito.
só o relógio continuou.

4 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"The Origin of Symmetry by ^DpressedSoul"
Deviantart

Controvento-desinventora disse...

No acabamento do dia, leio o dia do acabamento...e me acabo no fim do dia que acaba, em pleno sábado da ressurreição.

Amanda Andrade disse...

Como eu escutei uma vez, "o crocodilo tic-tac sempre nos persegue". Adorei suas palavras lindo.

Beijos.

Jacqueline disse...

...E então, o que nos vale de verdade, até o Dia do Acabamento?

Muito reflexivo, Germano. O poder no conceito inventado não é nada, vencido por si mesmo diariamente, deixado para trás por si mesmo e do seu rastro é que vive. E a cena das gaivotas... Que triste... :( Mas reflexivo.
Mas será que "a bateria" do relógio resiste a tudo isto? Se até as gaivotas caíram do céu... Rssssssssss.
Abraço!