segunda-feira, 26 de março de 2012

A doente



 Por Germano Xavier

Aquela mulher não podia estar bem. Ao menos não aparentava. De maneira alguma aquela mulher poderia estar em condições normais, corpo e alma, corpo ou alma. Parecia estar numa temperatura mais elevada, mais de quarenta graus, uma febre impossível, seu rosto revelava-lhe uma vermelhidão quase terrível. Uma mulher ainda nova, coitada. Cinqüenta e dois anos é uma idade onde muito do que nos acontece pode ser apenas uma novidade, uma novidade simplória por se saber ser simples, pois existem aberturas para surpresas várias no decorrer dos anos que ainda podem vingar, e o futuro, todos sabem, é um doce cozido na lenha do tempo. Porque se pensarmos bem, podemos sim contar o tempo. O tempo não é tão senhor assim das horas que são nossas. Mas este mesmo tempo havia manchado nuances suas antes imaginadas como intocáveis. Ela era uma mulher dura por natureza, mas o tempo pode sim ser mal, muito mal. Como a pele do rosto, agora flácida, com vincos que mais pareciam vaus secos por onde nem lágrimas poderiam mais escorrer. Como se se acaba assim?, perguntei-me próximo a ela, depois de tê-la avisado que voltaria outro dia para lhe deixar a encomenda que a mim fora incumbida. Uma das poucas perguntas que lhe fiz durante todos estes anos de convívio. Acredito que ajudamos muito quando o assunto é autodestruição. Deus também nos deu o direito à precocidade da morte. E quem cuida de tudo isso é o tempo. Ela, a morte, por parecer, ou melhor, por estar óbvio demais no semblante alquebrado da mulher, devia ter feito um boníssimo trabalho junto àquela senhora. Porque podemos continuar mesmo que o caminho seja de pedra, podemos fenecer se um jardim não for bem regado. Tudo pode aparentar, senão, uma questão de prioridades. O marido era um sujeito sem escrúpulos, faltava-lhe com o respeito todos os dias, todas as horas, escondia a aliança no porta-luvas do automóvel toda vez que fazia uma de suas viagens misteriosas. Era caixeiro-viajante, vendia de tudo, comprava de tudo e, se possível, negociava até almas. A mulher estocava paciência na despensa do seu coração. Quinze anos de convivência com aquele monstro. Não sei como agüentava tanto sofrimento. Era incrível, mas ali estava ela. Mulher parida na dor, mulher parideira de dor. Os filhos, dois meninos lindos, eram como se fossem uma espécie de salvação para ela. Depositava neles a esperança por dias mais tranqüilos e destituídos de acontecimentos ruins. Mas nem assim podia ser suportável. Aquela mulher estava doente. O sorriso estava triste, a face abatida, os ombros caídos. No café da manhã derrubara a xícara de café na frente de todos, agitação. No almoço, percebiam-se os talheres tremerem quando em suas mãos, grãos de arroz e feijão despencavam do garfo como pequenas pedras em queda livre. Havia certo desespero na cabisbaixeza de seu olhar, um ar de intranqüilidade mórbida, doentia. Havia algo dentro dela que estava sem controle, e que permanecia, suspeitável a ser algo muito, mas muito perigoso. Talvez um vírus, uma bactéria anômala estranhamente bem desenvolvida, um verme qualquer ainda desconhecido pela ciência, incógnita. Mas uma coisa havia de estar certa, naquela casa quase monumental da Rua Vieira e Sylva, 234, esquina com a Avenida Comendador Olegário Lopes, onde aquela mulher vivia com seus dois filhos, a empregada e o marido viandante, ninguém percebia, mas eu sabia em mim que existia uma mulher precisando de bastante ajuda. Sei por que eu a conheço de bons anos. E sei por que depois que fui até aquela suntuosa casa na última quinta-feira, feriado nacional, perturbou-me o seu estado de afetação, mesmo este estrado num silêncio cru e parco. A mulher não tinha vontade, os filhos andavam de um lado para o outro dentro da casa, brincando com colegas de escola, o marido entrava e saía com certa urgência, resolvendo coisas e aprontando mais novas de suas antigas partidas de destinos impensáveis, e ela simplesmente sentada no sofá largo de veludo na sala de estar, incólume a tudo e a todos, elaborando um nada absolutamente sufocante do ponto de vista de quem a enxergava pelos ângulos possíveis do aposento. De sua boca, poucas palavras transbordavam e caíam no mar do ar. Era como se houvesse uma densa floresta impedindo-lhe o caminhar harmonioso. Pela voz de algum amigo, fiquei sabendo que ela havia ido a alguns médicos a fim de fazer exames de rotina. Nada havia sido constatado. Nenhuma irregularidade de ordem corpórea. As precauções que lhe foram recomendadas foram as básicas, tais quais as proferidas a qualquer um que se comportasse dentro da esfera de sanidade do ser humano. Ela visitou parentes no interior, fez passeios por lugares nunca antes desbravados, fez-se mergulhar em águas cristalinas no sul do país, e nenhum de seus próximos conseguia reconhecer nela algum distúrbio de toda sorte. Pensei em receitar algum chá da próxima vez que a casa dela eu fosse. Ou talvez um calmante para aliviar um pouco do estresse. A última opção seria indicar-lhe a clínica psiquiátrica do Dr. Euclides Dória, exímio consertador de mentes destrambelhadas. Porém, uma coisa fez-me escolher o silêncio mortal e achar que, finalmente, não havia doença nenhuma naquela senhora. Foi quando cheguei no outro dia a fim de entregar-lhe a encomenda. Estava sentada, com os cabelos molhados como que vinda do banho, seu rosto possuía duas cavidades muito perturbadoras. Ela segurava em uma das mãos, com uma candura indiscutivelmente silenciosa, seu par de olhos verdes da cor do jardim na primavera.

4 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"longos olhos sangrando
by ~butterfly-cool"
Deviantart

artebaiao disse...

Bom, muito bom!!!

Rosangela Neri disse...

Quase senti preguiça de ler... uma confissão.
Já quando terminei a prosa senti vontade de ler as outras postagens... parabéns!

Beijinhos carinhosos da Rô

Camilla disse...

Saudade de te ler Xavier,
como sempre excelente prosa.
Dá pra sentir a perturbação da coitada a cada linha.
Vou ler mais coisas para ganhar o tempo perdido.
bjos
Tebet