sábado, 24 de março de 2012

Hugo Cabret achado no tempo


Por Germano Xavier 

Um final para o livro “A invenção de Hugo Cabret”,
de Brian Selznick


E então, como se acostumou sempre a fazer, Hugo saiu correndo do restaurante onde todos laureavam o velho Georges Méliès por toda a sua belíssima história de vida agora revista e revisitada. Isabelle ainda tentou segui-lo, mas não adiantou. O menino já estava no meio de uma rua cinzenta de Paris, voando com suas pernas de mágico recém-descoberto. Não, não era mais Hugo Cabret que seguia a sua sombra, e sim o Professor Alcofrisbas. Alguma coisa dentro dele dizia que era assim que tudo ia ser dali por diante, que nada nem ninguém poderia impedir a realização de seus sonhos. Ao invés de se prender aos cuidados do velho cineasta já no fim da vida, Hugo remoeu o passado como quem joga embora no terreno do esquecimento uma mancha nodoenta da memória. Hugo partiu para dar de cara com o mundo, fazer estrelas dentro do interior de sua cartola fantástica para depois jogá-las ao céu, iluminando tudo e todos. Hugo era assim, menino determinado, aplaudido de pé por ele mesmo, sabedor de suas forças. Tinha partido o meninote, talvez para nunca mais, um nunca mais que somente ele saberia o significado. Isabelle sentiria saudade mais tarde, quando todas as luzes da casa de Georges tivessem sido apagadas para mais uma noite de descanso. Mais tarde começaria a escrever um livro, talvez, um livro sobre Hugo, um livro sobre o ladrãozinho que conhecera na velha estação de trem. Pouco tempo depois o grande cineasta morreria, levando dias empós sua querida esposa, de uma doença chamada saudade. Hugo certamente saberia de tudo após alguns dias, mesmo estando longe. Hugo saberia, não havia dúvidas quanto a isso. O certo é que o tempo nunca mais havia sido o mesmo depois da história de Hugo Cabret e seu autômato. Na velha estação de trem os relógios nunca mais precisariam de regulagem, bateriam firmes e compassados em suas horas bem marcadas, como se um fantasma de Hugo estivesse sempre de prontidão para realizar a manutenção necessária. Até o inspetor mudaria, soube-se que o coração lhe parecia mais ameno, até porque chega uma hora em nossas vidas que nenhuma espécie de aprisionamento nos coloca vivos, e então chega a hora de mudar, de fazer diferente. Outra certeza era a de que o tempo nunca iria parar. Na cabeça dos transeuntes que passariam todos os dias pelo interior daquela velha estação, a lembrança de um menino amante da criatividade reinava absoluta. Era a alma de Hugo Cabret, dócil alma incorruptível, armada sempre para o desafio, a nunca sossegar os ponteiros que insistiriam em nos revelar a beleza dos invernos quando estes morriam.

Um comentário:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"Coeur Volant by =bluefootednewt"
Deviantart