domingo, 11 de março de 2012

Quando a infância é agora...


Escrito por Cláudia Lemos
Para Germano Xavier

Vem uma criança, entrando de rompante pela porta da frente, expulsando o adulto pela entrada dos fundos. Saem pernas curtas e sem medo de riscos, correndo de dentro de casa pra rua: pés-no-chão da alegria. Mãos maestram as cores dos brinquedos-imaginários, processando a magia da liberdade. Goza-se o prazer do olhar ingênuo e dentro dele uma vontade de viver e comer todos os doces, oferecidos pela guisa-levada de vitrines inacessíveis das vendas, doceiros e quituteiras. Mastiga-se a gula entre sorvetes e pipocas, cachorro-quente e mariola. A boca sempre lambuzada, as solas dos pés com cor-de-chão e os olhos aprumados ao céu, voando com as pipas-asas, desviando-se das marimbas. Os joelhos arranhados, machucados, tatuados pelas aventuras - descrição de travessuras. Cotovelos escurecidos de apoiar-se, para desafiar a gravidade, ver o arco-íris ou o outro lado do muro. E, de soslaio, um olhar atento voltando-se sempre ao portão de casa à espera de um grito sair pela porta em convocação para o retorno ao porto-seguro (proteção do Ser infante em regras e regimentos), quartel que cozinha o adulto que será. Se há chuva e lama, a alegria encharca o corpo, pra ser sovado, depois com palmadas ou castigos, ao penetrar a casa-adulterada limpa, todo sujo de molecagem, de estrepolia cheio e inflado de coragem. Banho tomado, lanche na mesa e a espera do pai transformam a criança que foge e se esconde sob a mesa, para surgir o poeta, personagem nascido da acuidade materna, na representação de costumes. Num reflexo simultâneo, entra o tutor familiar pela porta de trás, sempre entreaberta, a fim de espreitar a criança escondida em textos, que constroem contextos de fuga. Olhares severos guardam-na e aguardam para o combate, caso outra criança queira pulsar, no meio da sala de estar.

4 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"At the edge of the water by `thienbao"
Deviantart

neuminhapoesia disse...

Ah, ficou lindo! cada dia melhor este espaço que alimenta a alma de poesia, beleza e encanto. parabéns à autora.

URBAN.GO disse...

O sabor da liberdade infantil.
A ligeireza e subtileza das crianças.
As suas facetas, a sua imaginação.
Bonito texto, fez-me voltar um pouco ao passado.
Abraço, fica bem.

Dani Gama disse...

Amei, Claudia! falar de Germano é falar de criança. Não foi a toa que a fotografia que faço homenagem a ele se chama "menino grande" e traz uma criança no meio de um suposto labirinto ao por-do-sol. Bravissimo texto! lindo!

Beijos