terça-feira, 6 de março de 2012

Um poema para a pequena mulher do amor antigo


Por Germano Xavier

Um poema muito abalado por Charles Bukowski, que tinha razão...
o amor é mesmo um cão dos diabos.

conheço uma mulher
que segue caminhando pelo sol
sem medo do sol
sem receio do longe
do estranho
sol que se encaixa
lua que desencaixa
areia branca sem mar

ela é de desordem
tem o peito curto
a boca boa
a bunda grande
leve, astuta, ela é ardente
sem saber resolve todos os problemas
vem e vai
ondulando
vive perto do fazer acontecer
(que mistério é este que ela carrega na mochila cheia de cores?)
ao longo de muitos anos nos conhecemos pela via mais correta,
o destino. foi assim, sabe, sem paciência de ser paciente, logo aconteceu.
encontro, pum. porta fechada e nós a sós. foi o paraíso, nosso segredo.
fizemos mais que amor, fizemos saudade.
sempre duro a partida.
estávamos amorfos, molduras de um quadro nu, parado no tempo.
ela ia tomar banho e eu ficava imaginando ela tomando banho
(ela devia fazer sempre o mesmo).
a gente se respeitava. amor respeita?
ela não era simplesmente. ela era em mim.
ela me contou toda a sua história. ninguém conta toda a sua história assim de graça. eu gostei de ouvir toda a sua história, mesmo sendo toda a sua história. eu queria fazer parte de toda a sua história. a gente só vive assim, quando somos parte de toda uma história. então eu fui.
então ela veio.
e com ela fui mais. a gente até tomou café sem café juntos na cama, ela me protegeu. disse que o quarto estava muito iluminado, que era preciso uma penumbra silenciosa. ela lembrou da frase. é, eu faço frases.
mas nada é sem efeito.
o corpo dela, por exemplo, bateu em mim.
colamos. gozamos, nem preciso dizer. amor é um termo obsoleto tipo “gozar”.
a gente sabe que não é nada disso, mas sabemos.
o bom é isso. engraçado foi no final.
o dono do hotel ficou chateado comigo, de cara feia,
porque ele a viu subindo as escadarias para dormir comigo por dois dias.
eu disse que só tinha uma pessoa no quarto,
que tinha sido ilusão de ótica dele.
o dono do hotel não entende quando duas pessoas se tornam um só corpo e um só espírito.
coitado dele, peguei minha moto e sumi na reta.

5 comentários:

Germano Xavier disse...

Crédito da imagem:

"colecao PeB.. by ~anfesus"
Deviantart

Amanda Andrade disse...

Nossa, que história poética linda.
Adorei muito.

Beijos

Sandra Oliveira disse...

...! Adorei

MOISÉS POETA disse...

ah Bukowski !

Tenho um monte de livros dele...

Abraços !

Dani Gama disse...

Esse texto é afrodisíaco...adoro!