terça-feira, 13 de março de 2012

Uma crônica em três tempos


Tempo I - Maria, a neta polivalente

Por Germano Xavier

Ela tinha tudo para ter sido apenas mais uma Maria dentre outras Marias, mas o destino quis com ela fazer diferente. Esta Maria na verdade escreve Anna como primeiro nome para assinar os documentos mais importantes - assim mesmo, com dois enes. Anna Maria Félix dos Santos, a filha do emblemático seu Douzinho e de outra Maria, a mãe. Maria diversa, Maria múltipla, de uma sabedoria incomum, mistura de mulher-mãe, de menina, de avó. Humana, como as demais Marias e também os Joões iraquarenses, forte e fraca, destemida, mulher de se ir à guerra, de sangrar e dar a própria vida em troca de uma causa maior: a vida. Dupla, rudimentar mulher moderna, sem adjetivos que a classifiquem, olha para o hoje e para o amanhã sem jamais se esquecer do passado.

Esta Maria foi gerada dentro do seio de uma família tradicional da cidade de Iraquara, a família Félix. Cegamente obcecada por um conservadorismo natural àquela época, viu-se a atravessar as correntes pesadas do tempo antigo na obrigação de obedecer em tudo aos seus pais, o que a fazia sentir-se enfraquecida diante do silêncio a que era imposta durante todos os primeiros anos de sua vida. Foi assim que, durante muito tempo, aguentou a carga da quase-inércia das horas naqueles idos. Mas esta Maria era uma Maria autêntica, e sendo assim arranjou forças para atravessar inúmeras barreiras ligadas à mulher, vencendo com o passar dos dias toda espécie de submissão e escrevendo sua história com muita garra e força de vontade.

Maria é hoje patrimônio vivo de Iraquara, mas nem só em chãos ricos em carbonato de cálcio, que permitiram que a região possuísse o segundo maior parque espeleotemático brasileiro, riquíssimo em formações raras em grutas e cavernas, ela viveu. Maria foi mais uma daquelas Marias que começaram a crescer após ter conhecido o significado da palavra sofrimento. Uma Maria que percebeu que seu estado latente de ser não era o caminho mais curto em direção à felicidade. Família, convívio social e trabalho foram as maiores causas para o brotar acinzentado de vários de seus dias. Mas como tudo na vida sofre uma reviravolta, eis que Iraquara, esta criança, cedo ou tarde viria a lhe reservar inúmeras satisfações.

Para ela, a cidade grafada em língua Tupi e com o significado de “toca de mel”, em referência ao poço de água cristalina e salobra que atraiu os primeiros viajantes tropeiros e possibilitou que em seu derredor fossem construídas aos poucos as primeiras casas de descanso para as pessoas e animais, para sempre se tornaria sua jóia mais preciosa. Razão para uma paixão desmedida, esta Maria não podia caminhar por uma outra trilha.

O bisavô desta Maria foi, segundo ela mesma conta, o fundador da cidade diamantina, que em 05 de julho de 2009 fará 47 anos de emancipação política e territorial. Por estes e outros fatos, Maria se sente na obrigação de cuidar da sua filha Iraquara, paixão que certamente durará o tempo necessário à eternidade. Hoje, já entrada em anos e firme em convicções, deseja continuar sendo uma zeladora da história da cidade, buscando se dedicar ao máximo no intento de difundir e promover a esfera cultural da localidade.

Através da expressão de sua palavra, seja em prosa ou em verso, Maria tenta, com unhas e dentes, perseverar nesta ação transformadora. Sapiente das inúmeras dificuldades para com o trato e a valorização do fazer literário, Maria segue sem desistir, lembrando do passado:

- Teresinha, já decorei todas as poesias de Guiomar Chagas, a sobrinha do doutor Américo²!
- Então, recita uma aí pra ver se é mesmo verdade o que você me diz.

Foi lendo as poesias da colega de classe Teresinha, quando ainda morava em Ponte Nova¹ e contava seus 15 anos de idade, que germinou o gosto pela arte poética nesta Maria. Vendo-se desafiada a recitar poemas escritos por Guiomar, lá ia a Maria provar que a poesia entrava fácil pela couraça do seu espírito, demandando apenas uma maior dedicação ao trabalho de artesã das letras. Enfim, foi lendo Guiomar que esta Maria virou poeta. Admiradora do movimento romântico, Maria também percorre os campos da poesia que enaltecem a geografia privilegiada da região, assim como o desprendimento necessário para psicografar textos.

Certo dia, conta ela, entre o dormir e o não-dormir, entre o devaneio e sono, teve uma visão. Olhou para o teto e viu uma caravela a se aproximar, flutuando sobre nuvens, cercada por raios de luz com pontas preenchidas por pequenas estrelas. Encontrava-se além da sua própria imaginação, como parece ter sido todo o seu percurso vital. Médium-católica, voz-sentir, psicofônica, intuitiva, constituída de pressentimentos, professora polivalente de história, geografia, L.P.L.B, Religião, Educação Moral e Cívica, Filosofia et caetera, esta Maria um dia sonhou que era uma rosa no meio do jardim cheio de outras rosas e beija-flores. Sonhou simples, como quem apenas quer ser parte de todo o colorido de um tempo, sem suspeitar que ela, esta Maria de vanguarda, bem poderia ser todo o roseiral.


Notas.
1- Hoje cidade de Wagner-BA.
2- Américo Chagas, médico.

P.S. Esta crônica é a primeira parte de uma trilogia baseada numa entrevista com a escritora iraquarense Maria Neta - como é mais conhecida -, realizada no início do ano de 2009. Este texto faz parte do Livro-Reportagem intitulado "Iraquara - Em memória de Nós", que escrevi em 2009 (ainda não publicado) e com o qual realizei defesa de TCC do curso de Comunicação Social - Jornalismo em Multimeios no Departamento de Ciências Humanas III (DCH III) da Universidade do Estado da Bahia (UNEB).

Um comentário:

Diná Fernandes de Oliveira Souza disse...

Germano, sensacional sua crônica.
Parabéns pela magistral narrativa!

Abç!